Fernando Peres de Trava, antigo official do prelado de Compostella, parente e amigo dos primeiros fidalgos de Galliza, era amante de D. Tareja, e governava por mercê sua o Porto e Coimbra. As relações d'este fidalgo na côrte de D. Urraca só podiam ser favoraveis á mulher que elle amava.
D'este conjuncto de circumstancias, e talvez de outras que ignorâmos, nasceu a paz, na qual D. Tareja conservou as terras de Galliza, cuja posse havia dado causa á guerra, e obteve varias terras e aldeias nos districtos de Samora, Toro, Salamanca, Avila, Valhadolid e Toledo, como tenencia da irmã.
A quem a viuva de D. Henrique deveu estas vantagens, apesar das victorias de D. Urraca, póde conjecturar-se pelos successos posteriores. A Galliza dentro em pouco revoltou-se contra a rainha de Leão, e D. Tareja sem tomar activamente parte nas contendas que se seguiram até março de 1126 em que morreu a irmã, protegeu os revoltosos por todos os modos ao seu alcance, conseguindo conservar os territorios que possuia na Galliza, segundo o tratado de paz de 1121.
Algumas palavras do sr. Alexandre Herculano explicarão, melhor de que nós o poderiamos fazer, as causas d'esta inconstancia politica da infanta dos portuguezes. «Cada um dos personagens que figurava n'aquelle drama, diz o nosso illustre historiador, quer principes, quer senhores só pensava em tirar das desgraças publicas a maior vantagem possivel. As allianças faziam-se, e desfaziam-se rapidamente; porque nenhuma sinceridade havia no procedimento dos individuos. Os interesses particulares dos nobres e prelados cruzavam-se com as questões politicas, o modificavam-nas diversamente.» As acções de D. Tareja devem ser apreciadas n'este sentido. Ella obedecia á tradicção conjugal da independencia, ao proprio sentimento de liberdade, e ás tendencias e espirito dos barões e homens de armas de Portugal.
As qualidades incontestaveis de D. Tareja fizeram-a geralmente respeitada, tanto nas terras que governava, como em toda a peninsula hespanhola e mesmo nos paizes afastados. O papa mais do que uma vez a tratára como rainha, qualificação que só era legal ou de costume dar-se ás filhas legitimas dos reis, e ella propria tomou este titulo nos documentos publicos, promiscuamente com o de filha de D. Affonso, ou de infanta dos portuguezes.
Portugal começou tambem cerca de 1117 a ser designado como reino, manifestação nominal de independencia, anterior á elevação da dynastia real. Antes que o principe fosse independente no exercicio da soberania, já a opinião geral attribuia ao territorio essa qualidade, Portugal era reino sem ter ainda escolhido rei. O povo livre não podia tardar em proclamar um chefe que sustentando as ambições patrioticas dos portuguezes, acabasse com a supremacia politica do rei de Leão.
D. Urraca morreu em 1126, e seu filho Affonso VII fez tregoas com D. Tareja. Duraram pouco, porque ella recusou sugeitar-se ás obrigações da tenencia dos territorios que recebera em 1121. Na nova campanha Portugal não pôde esquivar-se a reconhecer a suzerania de Leão, e perdeu as terras de que pertendia o dominio absoluto.
D. Affonso Henriques foi durante esta guerra cercado pelo filho de D. Urraca em Guimarães, onde estava talvez já quasi revoltado contra a mãe, e para que o cerco fosse levantado, teve de prometter a seu primo Affonso VII, que lhe faria preito e homenagem das terras de Portugal.
Egas Moniz, poderoso fidalgo de Entre Douro e Minho, e aio do principe portuguez, ficou por fiador da palavra de Affonso Henriques; e o rei de Leão aceitando a fiança do mais honrado cavalleiro d'aquelles tempos, levantou o cerco, e retirou-se de Guimarães.
A palavra do joven principe não foi cumprida. Fosse que o animo de D. Affonso Henriques repugnasse a começar a vida politica pelo reconhecimento da supremacia estrangeira, ou fosse que os proceres do reino obrigassem o infante a faltar ás promessas de Guimarães, e a sacrificar a propria honra á independencia de Portugal, é certo que o filho de D. Tareja não cumpriu os ajustes do aio.