Á fundação da monarchia seguiram-se guerras incessantes com os infieis, dessidencias com Castella, alterações civis de grande momento entre os primeiros do reino, alguns governos fracos, e muitas occasiões de engrandecimento e de gloria seguidas de tristes desastres e de funestos azares, dos quaes alguns pertencem á nossa idade. A força dos animos populares conservou-se intacta. Os portuguezes mostraram-se no Bussaco, na Roliça e no Vimeiro, como outr'ora em Montes Claros, em Aljubarrota, e em Val de Vez ou em Ourique.

O progresso social melhorou os nossos costumes, e alterou o modo da nossa existencia, mas não enfraqueceu o caracter nacional, que já tinha resistido a outras transformações anteriores. A civilisação não pára no seu fecundo e incessante trabalho, porém onde encontra uma nacionalidade forte, respeita-a, e sabe emprega-la utilmente.

As nacionalidades que não vivem da energia do caracter popular ou que não souberam remoçar-se a tempo, caminham para a morte. As outras não, porque volveram a ser jovens, e começam agora a viver de novo. Aquellas dissolvem-se de podridão, e corrompem as outras. Estas são instrumentos de progresso, e como elementos da harmonia universal contribuem para o complemento dos fins da creação.

Sejamos nós assim.

Entremos na confraternidade universal dos povos, mas não queimemos por isso a nossa boa casa, porque em nenhuma outra estaremos tanto á vontade como n'esta que nossos passados fizeram, amassando com o proprio sangue o barro de que lhe levantaram os muros. Amemos os hespanhoes. São nossos irmãos, mas juremos a nós mesmos ficar portuguezes, como no-lo estão pedindo a honra e o interesse.

Vergonha seria que n'este reino fossem mais patriotas os principes do que o povo, e que ninguem sentisse nas veias o sangue dos barões e homens de armas de D. Affonso I. Do fundo do seu tumulo de Santa Cruz, estão os ossos venerandos do nosso primeiro rei animando os portuguezes a sustentar a nobre empreza, em que elle lidou até á morte, e pela qual tantos milhares de filhos d'esta terra tem perecido heroicamente.

Quem ousaria renunciar a esta herança gloriosissima? Ninguem.

A nossa nacionalidade tem poderosas rasões de existencia, e não póde depender, senão momentaneamente, do capricho de um conquistador ou das combinações de um estadista. Nenhum d'elles poderá contra este reino mais do que em favor nosso ha de valer sempre o caracter firme do povo, o desenvolvimento da civilisação, e a seriedade circumspecta do nosso procedimento politico.

Esses dotes são os alliados mais fieis e poderosos do povo portuguez. Com elles, e só com elles, se salvou nas crises difficeis. D'elles depende tambem no presente e no futuro.

Se por qualquer circumstancia infeliz vierem a faltar-nos essas qualidades na hora do perigo, ainda encontraremos na herança paterna um dever glorioso: