Os hespanhoes quando estão poderosos, querem arredondar o territorio, e quando andam mal governados, querem quem os governe bem. Em ambos os casos tem sempre olhado para Portugal com cobiça. Triste remedio para elles e para nós!

Eu tenho muita affeição aos hespanhoes. É uma grande nação. Quero-os para visinhos, para irmãos, para amigos, para alliados, para confrades no trabalho da civilisação, para tudo emfim, menos para darem cabo do que tanto nos custou a estabelecer e firmar.

Eu bem sei que se diz que nós ficaremos sendo os senhores, que a côrte ha de vir para Lisboa, e que até as armas portuguezas terão no escudo iberico o melhor logar antes das de Leão, de Castella e de Granada. Muito obrigado pela honra que nos fazem. Nós somos pequenos para tanto.

A respeito da união de Portugal a Hespanha cada um diz o que lhe occorre á idéa; qual nos designa para sermos victimas de uma organisação geral de nacionalidades; qual nos imagina desejosos de pertencer á nação visinha; este pretende preparar-nos para a annexação pelo receio da possibilidade della; aquelle para utilidade propria avisa-nos do perigo que talvez inventou.

Tudo isto póde ser verdade e tambem póde ser mentira. Acreditemos que é verdade; sejamos cada vez mais zelosos da nossa nacionalidade; procedamos de modo que a Europa nos julgue dignos de continuar a ser independentes, e não deixemos arreigar a idéa de que a fusão é inevitavel.

No fim de tudo, dos portuguezes a quem a idéa da união iberica agradou pela grandeza das consequencias que parecia resultarem d'ella, nenhum ha que na hora extrema seja capaz de renegar a patria. Nem dos hespanhoes sensatos haverá muitos que sonhem com a conquista e annexação do territorio portuguez contra nossa vontade. A questão é pois unicamente theorica.

O resto da Europa pouco se importa das nossas cousas. Olha para o mappa, e resolve o negocio geographicamente. Em vez de dividir o territorio em dois estados iguaes, dando-nos a a metade occidental da peninsula, apaga a historia de sete seculos, e annexa-nos á Hespanha, já se sabe, para nosso bem.

Contra este modo de sentencear devemos nós todos protestar por palavras e obras--verbo et opere.--Por palavras, indicando os dotes de nação forte e independente, que realmente possuimos; e por obras, dispondo-nos sem precipitação nem negligencia para sustentar o nosso bom direito.

Possa este modesto livro contribuir para esse fim e ajudar a conservar vivas na lembrança do povo, as tradições da nossa gloria e das nossas virtudes antigas.

Esse é o meu sincero desejo.