Junto d'aquelles marmores mudamente eloquentes, vi eu um dos homens de mais nobre e elevado coração entre os que n'esta terra já houve, chorar sobre as nossas calamidades civis, e ouvi-lhe derramar em jorros de inspiração poetica a saudade d'esses tempos gloriosos, e o amor da patria a que foi fiel até á morte![1] Triste morte por vergonha nossa!
Ali na capella chamada do Fundador jazem tambem os illustres filhos do mestre de Aviz. Quem não rogará a Deus pelo descanço eterno de taes principes? Até os estrangeiros curvam a cabeça diante do monumento que encerra os despojos mortaes do infante D. Henrique, porque as descobertas e viagens, que elle dirigiu e favoreceu, aproveitaram á humanidade inteira.
E D. Fernando, o santo, o triste principe captivo que Portugal deixou morrer em poder dos mouros para salvar a honra da patria, como se não fôra irmão de El-Rei? E D. Pedro, o malfadado duque de Coimbra, a victima de Alfarrobeira, de cuja regencia abençoada anda a memoria entre nós na tradicção agradecida? Esclarecidos principes!
Os portuguezes quizeram sobreviver á familia real. Não poderam. O povo ainda fez muito em favor de D. Antonio, prior do Crato, mas este principe não era para tomar sobre os seus hombros a empreza do mestre de Aviz. Só se parecia com elle em ser bastardo e clerigo.
Os tempos eram outros; lamentavel o estado do reino; o povo descorçoado e pobre; a alta nobreza e o clero mais ricos de ambição que de virtudes; o rei de Castella muito poderoso, astuto e munificente; o cardeal rei caduco e tonto.
Quem venceu então os portuguezes não foi o duque de Alva. A batalha chamada de Alcantara foi um insignificante feito de armas. Vencidos já elles estavam pelo concurso de mil circumstancias desgraçadas. Até o duque de Bragança D. João, que não quizéra em 1579 ser rei do Brazil, recebeu em 1581 nas cortes de Thomar o tosão de oiro contra o costume dos seus passados que nunca tinham aceitado ordem nacional ou estrangeira. Este era por sua mulher, a infanta D. Catharina, o legitimo herdeiro da corôa. O povo não podia resistir só.
Todos julgaram que Portugal acabára. Enganaram-se. A enfermidade de Alcacerquivir teve uma convalescença de sessenta annos, mas o doente recobrou as forças, e quando menos o esperavam, voltou á sua invencivel teima de ser independente e livre.
Eu não sei, se os duques, marquezes e condes antes queriam ser grandes da Hespanha do que pertencer á côrte portugueza. Não sei, se os capitães e generaes preferiam commandar em Italia ou em Flandres, se os homens de estado sacrificavam a idéa nacional á grandeza da monarchia, e se o alto clero dava mais valor á mitra de Toledo que á de Braga.
Talvez que assim fosse pelo que mais tarde se viu, quando o novo rei teve de mandar cortar a cabeça a um duque, a um marquez e a um conde, e metter em uma masmorra um grande prelado. O que eu sei é que o povo não queria ser castelhano, e tanto fez que depois de vinte e oito annos de trabalhos conseguiu que o deixassem ser portuguez e livre.
Dos fidalgos alguns ficaram em Castella, onde serviam. Padres tambem houve que se fizeram castelhanos. O povo esse, não. Em Braga havia um homem, cujos bens eram todos em Galliza. Pois deixou-os confiscar, mas veiu para Braga, e morreu portuguez. Bom povo!