Dedicada assiduidade no cumprimento dos seus deveres, gravidade e circumspecção no exercicio dos empregos publicos, inabalavel amor da justiça e igual firmeza em administra-la, protecção desinteressada aos desvalidos, cautelosa desconfiança dos poderosos, e igualdade severa em attender a todos, honestidade sem a mais ligeira mácula, e modestia exemplar, foram as qualidades que reunidas á vasta intelligencia que lhe déra a natureza, e que elle cultivára com esmero, o fizeram respeitado e grande em um e outro hemispherio, e ainda além do temeroso cabo a que em tempos mais felizes trocámos o nome com espantosa previdencia do futuro.

Importa pouco saber se o Sr. Pedro Alexandrino da Cunha, pertencia á classe da nobreza portugueza: as nove cunhas de oiro que illustram o brazão da familia do Alferes-Mór de D. João I., não acrescentariam uma folha sequer aos immarcessiveis loiros da sua gloria, nem o exemplo de nobilissimos ascendentes poderia impôr-lhe maiores obrigações, do que as que seu honrado pae lhe legou morrendo em Argel de feridas recebidas em combate com os moiros, quando ainda faltavam alguns mezes para o nascimento de seu filho[1].

O Sr. Pedro Alexandrino da Cunha, aceitou corajosa e dedicadamente este legado paterno de servir a patria, e de morrer por ella; e cumprio-o com espantosa perseverança.

A sua vida foi desde os primeiros annos votada inteiramente ao serviço do Estado, já preparando o seu espirito com assiduos e convenientes estudos em que todos o admiraram, já escolhendo uma nobre profissão, da qual são socios inseparaveis os trabalhos mais rudes, as mais improbas fadigas; e com effeito, os incompletos dez lustros da sua laboriosa existencia foram passados nas mais trabalhosas commissões do serviço publico[2].

Apenas entrado nos primeiros postos do Exercito, abrio-se-lhe largo ensejo de mostrar as suas propensões politicas, a capacidade do seu espirito, a extensão, e utilidade do seu prestimo e valia.

A liberdade acenou-lhe do alto daquelle rochedo heroico em que depois de desastrosos acontecimentos se apinhavam os seus bravos defensores, e o Sr. Pedro Alexandrino da Cunha, já estava na Ilha Terceira quando o filho mais moço do Imperador e Rei acabava apenas de sentar-se no Throno de Portugal[3].

Ali como Official de Infanteria, e depois como Official da Armada, mostrou em arriscadas commissões para quanto o habilitavam a escolha dos seus estudos, a seriedade de seu caracter, e a sua infatigavel actividade[4]; e desde esse tempo até ir com o Duque de Bragança cravar nas praias do Mindêlo o estandarte da liberdade portugueza, pôde por tal fórma provar o muito para que era, que nas continuas e indispensaveis lutas da nossa difficil reconstrucção politica, nenhum governo pôde dispensar os seus serviços, nenhuma consideração aconselhou nunca que o afastassem dos negocios publicos, porque o Sr. Pedro Alexandrino da Cunha, era mais patriota que partidario, mais homem do seu paiz do que homem das facções[5].

Quasi estranho ás nossas dissenções civís vivia para os melhoramentos uteis, para os grandes pensamentos praticos, sem os quaes não ha civilisação possivel; e naquella alma, que o fogo das paixões politicas não consumira, vegetavam com a virgindade da primeira florescencia o amor da Patria, o dezejo do engrandecimento e respeito do nome portuguez, o infatigavel ardor pela realisação dos melhoramentos materiaes, e uma certa moralidade catoniana que passaria por fabulosa se vós todos a não testemunhasseis, se este acto grandioso e sublime não fosse a prova mais indisputavel desta profunda verdade.

Vós, que o conhecestes entregue aos curiosos e difficeis trabalhos do exame e exploração da costa do sul de Benguella, e empregado na repressão de um trafico illicito, que os habitos inveterados, e a falta de boa direcção administrativa faziam parecer impossivel evitar, trafico que a philosophia e a humanidade condemnam, e que o proprio interesse commercial começa hoje a considerar insensato e ruinoso; vós, que o vistes commandando a Estação Naval, e organisando estabelecimentos uteis e indispensaveis, a cuja creação se não abalançára a previdencia e zêlo das primeiras auctoridades da Provincia, direis que ninguem poderia vir balbuciar uma accusação aos pés deste feretro, murmurar uma pequena queixa que possa embaciar o lustre de tão honrada memoria[6].

Mal repousava destes trabalhos, e da penosa commissão que o levára ás praias da Bahia, aonde a sua firmeza e prudencia foram dignas do antigo nome portuguez, e já a confiança do Governo abria um campo mais dilatado ao incansavel espirito do Sr. Pedro Alexandrino da Cunha, nomeando-o Governador Geral desta Provincia[7].