Ministravas-me cuidadosamente os remedios e as comidas, temperadas pela tua propria mão, e informavas diariamente a minha familia das progressivas melhoras, que eu experimentava.

Afinal, ergui-me da cama, e, poucos dias depois, comecei a dar alguns passeios, pelo teu braço.

Ficava a minha casa proxima ao Jardim botanico, e era para ahi que sempre nos dirigiamos.

Estavamos então entrados na primavera, essa estação encantadora, em que o coração se retempera no ar embalsamado que nos rodeia; essa gioventù del anno, como lhe chama o poeta, em que toda a natureza nos sorri, com ineffavel magia.

Eu sentia-me renascer; parecia-me participar da qualidade dos arbustos e das plantas, que nos cercavam; corria-me nas veias uma nova seiva, e impressionava-me em extremo o grandioso espectaculo, que se offerecia a meus olhos.

Depois de darmos algumas voltas por aquellas frondosas avenidas, sentavamo-nos n'um banco do jardim, e um ao outro communicavamos as impressões, que recebiamos d'aquelle panorama encantador das «saudosas margens do Mondego», que d'alli se observa em todo o esplendor da sua belleza.

Depois, quando o sol, declinando, nos aconselhava a regressar a casa, levantavamo-nos e deixavamos vagarosamente aquella mansão deliciosa.

Os extremos da tua amisade tinham-me furtado talvez a uma prematura morte, mas não lograram desanuviar-me o coração da magoa, que o suffocava.

Deixava-me por vezes dominar de profunda tristeza, e assim me conservava por largas horas, alheiado completamente do mundo exterior, e só entregue a amargas cogitações.

Um dia entraste no meu quarto, e disseste-me que era preciso saír de Coimbra; que tinhas conversado largamente com o medico, e que este fôra de parecer de que a distracção era o unico remedio que podia completar o meu restabelecimento.