E agora me lembra um episodio d'essa saudosa jornada, que tem relação com o que levo dito, e que é mais um attestado do conforto e da commodidade das taes locandas da antiga estrada coimbrã.
Quando chegamos a S. João da Madeira, saímos da carruagem, e entramos na hospedaria, para jantar.
Depois que démos as nossas ordens, na cosinha, subimos para a sala, onde deviamos esperar que nos servissem; mas era tal a ventania, que entrava pelos buracos dos vidros, e pelas fendas do telhado, que, não querendo voltar logo para a carruagem, de que já estavamos fartos, tomamos o partido de nos sentarmos a um canto, e abrir os chapéos de sol, a vêr se d'este modo podiamos afrontar a intemperie.
Pouco tempo porém estivemos n'essa posição caricata; afinal entendemos que o mais acertado era jantarmos dentro da carruagem, e assim o fizemos.
Ainda hoje me rio, quando me acode á ideia essa scena de comedia, que acabo de descrever.
D'ahi por algumas horas chegavamos aos Carvalhos, onde nos esperavam, meu pae e minha irmã, e todos juntos seguimos para o Porto.
Com a viagem, que descrevi com leves traços, termina esse episodio da nossa vida, em que se patenteia bem a elevação do teu caracter, e a dedicação que te devo; mil annos que eu vivesse, nunca esta pagina da minha mocidade, se me apagaria da memoria.
Sei, e já o disse no principio d'esta carta, que vou offender a tua modestia, tornando publico esse exemplo que déste da nobreza dos teus sentimentos.
Não importa. És tu geralmente apreciado como homem de letras, quero que todos te apreciem tambem como homem de coração;—como exemplo do amigo dedicado.
Porto, 12 de janeiro de 1872.