O romancista quer que o seu livro corra mundo, e seja lido com prazer. Para alcançar este desideratum, procura deleitar, e para este fim tem de vasar a sua obra nos moldes do gosto publico; isto é, tem de a accommodar ás idêas e costumes em voga n'essa epocha. E ainda que consideremos o escriptor, pegando da penna, sem que o mova o interesse pecuniario, forçosamente ha de escrever sob a mesma poderosa influencia das idêas e costumes publicos.

[ II]

Quando as cruzadas, minando pela base o feudalismo, crearam o espirito cavalleiroso, que, d'envolta com o sentimento religioso, foi adoçando pouco a pouco a fereza da edade media, e, ao mesmo tempo, abrindo a porta á illustração do seculo, surgiu o romance, como guarda avançada das letras; cruzada não menos santa, preparada no remanso do gabinete pelos primeiros chronistas, annunciada e apregoada pelos antigos trovadores.

O romance mostrou-se desde logo o retrato fiel da sociedade, em todas as phases da sua vida moral e physica.

Pois que n'essas eras se manifestavam e expandiam o sentimento religioso em guerras contra os infieis, e o do prazer em justas, torneios e caçadas, ou em saraus, onde os trovadores cantavam, ao som do alaúde, amores e guerras; pois que a justiça humana chamava amiudadas vezes os delinquentes ao campo dos combates judiciarios; pois que as moradas da nobreza eram castellos, cercados de fossos, e eriçados de ameias; as espadas, as lanças e as armaduras os melhores ornamentos das suas salas; a montearia, a diversão predilecta das illustres castellãs; o romance, reproduzindo todas estas feições sociaes, tomou a fórma de novellas de cavallaria. Amores e guerras constituiam, portanto, o assumpto obrigado d'essas composições. A honra, o valor, a coragem, a dedicação desinteressada, a fé e a esperança estreitamente unidas, todos estes dotes de um perfeito cavalleiro, todas estas idêas, que então occupavam os espiritos quasi exclusivamente, até dos que não possuiam tão nobres qualidades, sobresaíam e brilhavam com tanto fulgor nas paginas d'essas novellas, como as estrellas que scintillam no manto negro da noute.

[ III]

Em quanto as cruzadas, attrahindo a um campo commum as differentes nações da Europa, e pondo em contacto o Occidente com o Oriente, faziam raiar a aurora de uma nova civilisação, travavam encarniçada lucta a realeza e o feudalismo. Aquella, soccorrendo-se ao principio popular, acabou por triumphar do seu poderoso adversario. Porém, durante a pugna, o poder real teve de arcar com o poder theocratico, o qual, a seu turno, alcançára victoria sobre a propria realeza.

A influencia dos pontifices no regimen dos estados, que tão benevola e providencial se ostentou, em quanto serviu de medianeira entre os opprimidos e os oppressores, estendendo sobre os mais fracos a égide do poder espiritual, veiu a tornar-se oppressiva e intoleravel, desde que, abusando da sua intervenção nos negocios temporaes das nações, converteu em tyrannia aquella missão paternal.

A supremacía dos papas, actuando na politica dos governos e nas idêas e costumes populares, imprimiu uma grande modificação no viver da sociedade. Essa modificação não tardou a estampar-se no romance, despojando-o dos esplendores e galanteria, com que até alli se ataviára, e fazendo-lhe vestir a roupagem, modesta e singela, mas não falta de poesia, das lendas religiosas, que lá foram aninhar-se nas chronicas monasticas, parecendo fugir ás impurezas do seculo.

A fé viva, sugeitando a razão além do dogma; a esperança vivissima em uma eternidade de gloria e de suprema ventura na outra vida, como recompensa do refreamento das paixões e das abstinencias, e como compensação das grandes dôres; o curso geral das cogitações e controversias dos sabios para as materias theologicas; as diversões populares restringindo-se, quasi exclusivamente, ás procissões, nas quaes eram admittidas dansas, e toda a sorte de exhibições phantasticas e burlescas, aos arraiaes e outras festividades religiosas, e, finalmente, aos autos sacros, que constituiam o theatro na infancia, depois do seu renascimento; as provas do fogo, do ferro em brasa, e da agua fervente, denominadas juizo de Deus, aceites nos tribunaes de justiça como testemunhos irrecusaveis da innocencia ou da culpabilidade: todo este pensar e este viver reflectiam-se nas lendas religiosas com a mesma exactidão e vigor, com que o sol reflecte na superficie das aguas a sua fronte luminosa.