D. João Quijano, rico banqueiro que morava na rua de Toledo, estava no seu escriptorio, situado nos baixos da casa, com seu sobrinho D. Lucas, e n'uma sala contigua trabalhavam em silencio, sentados ás suas carteiras, dois caixeiros encarregados da contabilidade e da correspondencia. O gabinete do banqueiro tinha um postigo com vidraça que dava para o escriptorio geral, e pelo qual o tio e o sobrinho espreitavam amiudadas vezes, no intuito de se certificarem se os caixeiros cumpriam as suas obrigações; phrase de que D. Lucas se servia para os fazer trabalhar, quando os ouvia fallar em cousas alheias aos assumptos commerciaes da casa.

D. João era homem de cincoenta annos, pouco mais ou menos, córado, robusto, de nariz grande e cabelleira tão bem arranjada e composta, que os proprios caixeiros não teriam dado por ella, se não fôra o genio de sua mulher D. Joanna, que, nos seus accessos de cólera, lh'o lançava em rosto, chamando-lhe «tio cabelleira».

D. Lucas devia ter os seus vinte oito a trinta annos; era pouco mais alto que um cão sentado, e nem a sua phisionomia, nem as suas palavras revelavam talento ou bondade de coração. Não obstante isso tolerava-lhe o tio os defeitos, e até sentia estima por elle, não só por ser empregado antigo da casa, mas tambem porque podia dizer-se que era D. Lucas quem carregava com todo o peso do estabelecimento.

—Veja lá, tio, disse D. Lucas a D. João, levantando os olhos para um relogio, que estava collocado na parede, em frente da escrevaninha do banqueiro,—se tem de ir á Bolsa, não se descuide que são quasi duas horas.

—Parece-me que não vou lá hoje, respondeu D. João; quem ha de saír de casa por um tempo d'estes? A vida é curta, e se eu morrer... tocam os sinos a defuncto, e está tudo acabado... Demais deve estar por ahi a chegar o pequeno e tenho desejos de o vêr. Recebi pelo correio uma carta de meu irmão Martinho, na qual este me diz que o rapaz saíu de lá no primeiro do mez, na carroça de Chomin, e segundo o meu calculo, temol-o por ahi hoje. Talvez não fosse mau mandar o Toribio á estalagem.

—Não sei para que; quando elle chegar, cá virá ter.

—O pobre pequeno deve vir tolhido de frio.

—Não lhe dê isso cuidado; não inspira compaixão quem vem como elle para Madrid, comer bom pão e boa carne, em vez de comer brôa e batatas n'uma aldeia da Biscaya.

—Pois apesar d'isso estou bem certo de que preferiria encontrar hoje, ao apear-se da carroça, a cosinha de seus pães, com a sua priguiceira e um bom fogo de rama de pinheiro, a entrar n'esta habitação ricamente mobilada e com chaminé á franceza.

—Parece-lhe que o empreguemos em compras e recados?