D. Joanna, que entrára como creada e acabára por ser ama em casa de D. João Quijano, tinha o relogio atrazado, pois assegurava ter trinta annos, ao passo que a sua physionomia, e o que ainda é mais, a certidão do baptismo, lhe davam quarenta.
Deter-me-hei pouco na descripção dos seus dotes physicos; direi apenas que as creadas, que despedia todas as semanas, a mimoseavam, ao descerem pela ultima vez as escadas, com os epithetos de: dentes de cavallo, estafermo, e olhos de gato.
Quanto ao moral era D. Joanna a personificação da antithese; alternavam-se n'ella a vaidade e a modestia, a avareza e a liberalidade, a crueldade e a compaixão, a elegancia e a falta de gosto no vestir.
Se um dia fazia gala, em uma reunião de pessoas distinctas, de não ter gasto até a edade de quatorze annos, outro calçado que não fosse o do seu proprio coiro, despedia, no dia seguinte, uma creada por a pobre rapariga pedir, na sua innocencia, ao carteiro, que lhe lêsse uma carta do seu noivo, por isso que sua ama não sabia lêr; agora despedia um mendigo com a seguinte blasphemia: «Vá pedir a S. Bernardino», que na bôca dos que podem e não querem dar, substitue a supplica—«queira perdoar, irmãosinho, não póde ser agora»—que costumam usar os que querem e não podem; e logo, sabendo que qualquer vizinho estava doente e precisado de meios, era muito capaz de lhe mandar uma boa esmola. Pela manhã dava uma tarêa ao cão por este ter mordido o gato, e de tarde dava outra ao gato por ter arranhado o cão; na quarta feira ia passear ao Prado, de vestido de velludo, e na quinta apresentava-se no mesmo sitio de vestido de chita.
Se sou tão minucioso e até prolixo, é porque não quero que alguem critique e censure no pintor as inconsequencias do original.
D. Joanna dominava por tal arte o marido, que a vontade d'elle estava sempre subordinada á sua. D. João tremia diante d'um gesto ameaçador da mulher, e por mais d'uma vez teve ella um accesso medonho de cólera só porque o honrado banqueiro entrou em casa ás dez horas em vez de se recolher ás nove.
—Ora, com effeito, disse D. Joanna, quando D. João entrou na sala do jantar, já julgava que seria preciso metter-lhe empenhos, e dirigir-lhe algum requerimento para que o senhor se resolvesse a vir jantar. Se se persuade que eu estou para aturar as suas grosserias, está muito enganado.
—Sempre tens muito mau genio, Joanninha! disse o banqueiro, esfregando as mãos e com um sorriso affavel nos labios.
Sentou-se D. João á mesa, encheu um prato de sopa e passou-o a sua mulher; esta porém empurrou-o com tal violencia, que todo o seu conteúdo se entornou na toalha.
—Tambem tenho mãos para me servir.