—Vae deitar os cães e o pequeno, dar uma vista d'olhos lá por baixo, vêr se está tudo bem fechado, e demora-se até poder trazer para cima a luz, porque aqui em Madrid é preciso muito cuidado com os fógos. Como estes rapazes são em geral muito dorminhocos e Lucas entende que por nós gostarmos de palestrar o nosso bocado, não se segue que o pequeno esteja para ahi a turrar com somno, dá-se pressa em o levar para a cama.

Succedeu a Angelo nem mais nem menos do que aos seus antecessores, com a differença, porém, de que á pobre creança lhe foi dobradamente mais custoso deitar-se a meia ração, por isso que todo o dia estivera fazendo cruzes na bocca, e quando o chamaram para a ceia tinha fome canina.

Uma pessoa adulta, oppressa pelo peso de tão profundo desgosto como era o d'elle, teria olhado para a comida com repugnancia, ainda que estivesse a caír de fraqueza; mas é que uma pobre creança, se acontece perder o appetite por espaço d'algumas horas, prompto o recupera, por mais acerbos e cruciantes que sejam os seus desgostos.

Angelo deitou-se e Dom Lucas despediu-se d'elle do seguinte modo:

—Ora queira Deus que pela manhã não haja preguiça! Aqui não se trata só de comer e dormir. Ás seis horas varrer bem o escriptorio.

Dom Lucas, como temos visto, usava muito d'essa especie de linguagem impessoal inventada pelos lacaios com o fim de se esquivarem a dar tratamento.

[ VI]

Angelo, com a solidão do seu aposento, deu-se por compensado da parte da ceia de que a maldade de D. Lucas o privára. Alí podia sequer chorar desafogadamente, podia rogar a Deus que o restituisse ás suas montanhas, invocar o nome de seus paes, e execrar até os seus algozes, sem que uma gargalhada de despreso, um dito humilhante ou uma pancada fossem perturbal-o nas suas cogitações.

Ai! muito chorou a pobre creança, n'aquella noite!

—Como é triste viver em Madrid! pensava elle. E dizerem na minha terra que—de Madrid só para o céo!—As pessoas que dizem isso de certo nunca estiveram aqui! As ruas e as praças estão convertidas em lodaçaes immundos; a gente anda toda aos encontrões; as carruagens e os cavallos atropellam e cobrem de lama os transeuntes; as goteiras alagam os individuos que seguem pelos passeios; e o vento que sopra das portas faz rebentar o sangue nas mãos e na cara!