D. Lucas não desanimava como Angelo. Atravessando campos semeados, atraz d'um pardal ou d'uma cotovia, foi-se affastando, poupo e pouco, seguido pelos seus companheiros. Angelo já se sentia fatigado, e outro tanto acontecia aos dois improvisados cães de caça. Sentou-se por fim n'uma pedra, e os cãesitos, vencidos egualmente de cançaço, deitaram-se n'um rego do campo; D. Lucas, porém, vendo isto, deu um empurrão á pobre creança, e affagando os cães, obrigou-a a carregar com elles.—«Tu que não pódes leva-me ás costas.»

Como D. Lucas seguisse a margem do ribeiro de Luche, saltou-lhe um coelho de entre os pés. D. Lucas disparou-lhe um tiro a corta-matto, porém o coelho proseguiu no seu caminho sem ter soffrido o mais leve incommodo.

O caçador soltou uma praga e affirmou aos seus companheiros, que o coelho ia ferido, e que se não tinha morrido logo ali, a culpa não era sua, mas sim da polvora, que não prestava para nada. E o pobre Angelo que já não podia com o corpo, e menos ainda com a alma, continuava a seguil-os, carregado com os cães.

Com estas e outras proezas foi passando o tempo, e os caçadores tomaram por ultimo o caminho de Madrid, levando nos correões meia duzia de passaritos.

De vez em quando Angelo ficava para traz, e o sobrinho do banqueiro ajudava-o então a andar, proferindo uma praga, ou dando-lhe um pontapé.

Junto á porta de Toledo, encontraram um caçador, que levava quatro coelhos.

—Olá, tio Lobo! disse D. Lucas; pelo que vejo não lhe correu mal, hein?

—Assim, assim, snr. D. Lucas; e o senhor, que tal?

—Ora deixe-me, homem, estou desesperado com esta maldita polvora.

—Então que tem? está humida, talvez?