O traductor.

Meu querido Vilhena Barbosa.[1]

A grata recordação das lições que de ti recebi, quando no meu espirito começava a desenvolver-se o gosto pelo estudo da litteratura; os salutares conselhos, que me dispensaste, nos primeiros annos da minha adolescencia, apontando-me a escolha dos auctores, que deveriam formar o meu estylo, e robustecer as minhas tendencias litterarias; aquellas nossas conversas, de tamanho interesse para mim, em que as luzes do teu illustrado entendimento tentavam dissipar as trevas da minha ignorancia, conversas que, pouco a pouco, e no decurso d'alguns annos de convivencia intima, iam subindo d'alcance, á medida que, pelo estudo, eu me habilitava a comprehender-te e a discutir comtigo, seriam já, de per si, sobejo motivo para que eu te dedicasse este livrinho, se não houvesse ainda razões de entranhadissimo affecto, razões todas do coração, e completamente alheias á cultura das letras, que a isso me obrigam, com força de irresistivel encanto.

A minha vida está, desde os mais verdes annos, ligada, por laços indissoluveis, a essa dedicação illimitada que sempre me votaste.

Era eu bem creança, e já tu me franqueavas os arcanos da tua vasta erudição. Não sei que confiança era a tua na mediocridade da minha esphera intellectual. Eram horas esquecidas d'instructiva palestra, em que a historia patria, a philosophia da historia, as sciencias naturaes, e a litteratura constituiam um thema variado, que me deleitava e instruia, animando-me a procurar nos livros cabedal de conhecimentos com que podesse corresponder ao teu paternal intento de me tornar util a mim e á sociedade.

Oh! que saudosos tempos, de feliz memoria, são esses para mim!

Quando nos separavamos, continuavas tu, de longe, a indicar-me os bons modelos, e a apontar-me um futuro, que a tua céga amisade antevia para mim, mas que, erat scriptum, eu não deveria attingir.

Nunca me abandonaste; e, se foi baldado o teu intento, ao menos da constancia do teu affecto tiro eu motivo de muito orgulho, e isso basta para me consolar.

Nos primeiros mezes de 1860, época de terrivel amargura para o meu coração, revelou-se a tua amisade por mim pela prova mais grandiosa, que póde aquilatar os sentimentos d'alma.

Em dezembro, tinha eu vindo de Coimbra ao Porto, a férias. Entrava em casa com aquelle alvoroço, que tu por vezes presenciaste, e que sempre me dominava, ao acercar-me de meus paes e de minha irmã. Minha mãe chorava de alegria, cingindo-me n'um amoroso e prolongado abraço, e eu correspondia ao seu carinho com todo o affecto, que me inundava o coração. Sabes como eu a amava. Por mais d'uma vez te achaste ao nosso lado, no momento de nos separarmos.