Sempre que Cosme soccorria algum viandante extraviado, ou extenuado de fome e cansaço, ao soar o toque de Trindades na egreja de Valmaseda, que se avistava lá em baixo, no pé da montanha, apparecia-lhe um anjo, que lhe sorria amorosamente, e que logo se remontava ao ceu, deixando-o immerso em mystica alegria.
Um dia, de manhã, estando os montes cobertos de mui densa névoa, saíu Cosme da miseravel choça, onde vivia vida penitente, e poz-se a divagar por aquelles bosques espessos e fragosos, a vêr se encontrava alguns caminhantes, que n'elles se houvessem extraviado, e, de repente, deu de cara com uns poucos de homens, que levavam outro manietado.
—Porque vae preso esse infeliz? lhes perguntou elle.
—Porque é um grande criminoso, a quem a justiça condemnou á morte, lhe responderam.
—Quem as faz paga-as, disse o anachoreta, dando tregoas á sua compaixão.
Os executores da justiça de Valmaseda detiveram-se mais acima, n'uma encrusilhada, pegaram n'um grande madeiro secco, que, havia muitos annos, estava estendido ao lado do caminho, fixaram as extremidades d'esse madeiro secco nos primeiros galhos de duas arvores parallelas, lançaram um laço ao pescoço do criminoso, e suspenderam-n'o d'aquella forca improvisada, voltando a Valmaseda apenas se certificaram de que elle tinha expirado.
[2] Encartaciones, as terras de Biscaya, que gosam de fóros e regalias especiaes.
[ II]
N'esse mesmo dia em que, por sentença do tribunal de Valmaseda, foi enforcado um grande criminoso, no caminho de Colisa, salvou Cosme da morte muitos viandantes, que, sem o seu auxilio, seriam devorados pelas féras, ou se teriam despenhado nos precipicios d'aquelles temerosos desvios, então mais temerosos do que nunca, por causa da espessura do nevoeiro.