—Porque estou apaixonada por ti, e se não casar comtigo, não caso com ninguem.
—Mas, senhora, entre os meus correligionarios ha moços mais bem parecidos do que eu.
—Asseguro-te que nenhum me póde agradar tanto como tu.
—Sinto isso bem; mas eu é que não posso casar.
—Visto isso, não terei outro remedio, senão dar a mão d'esposa a algum d'esses moiros... que... diga-se a verdade, entre elles ha rapazes bem tirados das canellas, e o que me não agrada n'elles é apenas a religião, que professam...
Quando o Preste João ouviu estas palavras, tremeu dos pés á cabeça, pensando, e com razão, que, pelo facto de a rainha casar com um mahometano, todas as Indias, povoadas de milhões e milhões de habitantes, abraçariam a seita detestavel de Mafoma, ao passo que, se casasse com um christão, toda aquella gente seguiria a religião de Christo.
—Senhora, disse elle, por fim, á rainha, póde ser que consigamos harmonisar tudo. O Papa, que é o Vigario de Christo na terra, é o unico que póde auctorisar-me a casar com V. M. Vou já escrever-lhe, pelo correio d'hoje, pedindo-lhe a competente licença.
—Oh! que feliz idêa! exclamou a rainha; e riam-se-lhe os olhos, de contente. Bem digo eu que és um rapaz de muitos recursos!
O Preste João poz logo mãos á obra; escreveu ao Papa, contando-lhe, muito pelo miudo, o que se passava, e, na volta do correio, recebeu de Sua Santidade a dispensa para casar com a rainha das Indias.
Celebraram-se, pouco tempo depois, as vôdas, com grandes festas e muito regosijo (bem entendido, depois da rainha se ter feito christã) e, passados annos, recebiam o baptismo todos esses milhões de milhões de indios, que os inglezes, nos nossos dias, se fartaram de metralhar, sem dó, nem piedade.