Vestaes e cortezãos, virgem ou messalina, sentiam, como as mais, as rijas attracções da energia do sangue e a força masculina dos seus musculos d'aço e rigidos tendões, ao vêl-o calmo, em pé, e trémula a narina, doirado, semi-nú, calcando os histriões.
De certo as mais fieis matronas recatadas, filhas, irmãs do edil, consul, ou senador, sentiam perpassar, nas noites desmanchadas, o imperio do perfil do extranho gladiador. Mas ele tinha erguido, em rochas escarpadas, —sagrado como um templo, o seu arisco amor!
Porém, por sua vez, o heroe da Roma esquiva, gloria dos histriões, dextro no césto e lança, que havia preso a loba, a Roma, essa lasciva dos bordeis de Suburra, e preso pela trança, amava uma mulher de marmore, uma altiva, amava sem remedio, amava sem esperança.
Era Livia o seu nome; e nunca as galerias austeras e immortaes manchou dos seus avós. Jamais o Amor lhe fez velar noites sombrias e, erguendo as mãos, chorar, sobre o seu leito, a sós. —Pólos! ha corações mais gelados que vós. —Estatuas! não sois só as bellas coisas frias.
Embalde erguia as mãos, magras de um sonho ardente, pelas noites febris, para o solemne ceu. Em vão elle exibia um facto resplendente, vencendo os histriões, heroes do povileu. Em vão, na via Appia, ia atravez da gente, seguindo-a, como ao vento o pó d'um mausoleu.
Em vão ia passar as noites nas orgias dos bordeis de Suburra, ás luzes amarellas. Em vão ia, ao luar, á brisa das marezias, sobre as aguas do Tibre errar nas noites bellas. Em vão trepava, á noite, ás altas penedias, pallido, a fronte em febre, ao frio das estrellas.
Em vão fez que lhe désse o tragico Tiberio o bracelete d'oiro e o annel de cavalleiro. Em vão fugiu, correu todo o romano imperio, a Gallia, a Syria, o Egypto, e o Oriente inteiro, e na Judea viu ao Christo magro e serio, ao sol-posto, expirar, em cima d'um madeiro.
Em vão correu a Lybia, as praias extrangeiras, viu outros novos ceus, outros extranhos mares, as rosas de Sarão, as verdes laranjeiras, as florestas da Gallia, a areia dos palmares, e os prophetas Judeus, debaixo das palmeiras, magros, com largo gesto, erguendo as mãos aos ares.
Em vão elle viu Chypre, a bella ilha amena, as Gregas sensuaes, brancas, dominadoras, as bellezas de Cós, as tentações do Sena, as Judias fataes, as do Ebro tentadoras, e em cima d'um rochedo, á tarde, a Magdalena, chorosa, ao pé da cruz, rojando as tranças louras.
Em vão! Nunca a esqueceu!—Nem perto do inimigo, nem junto dos leões, na paz, nos morticinios, na areia do deserto, ou sob o tecto amigo, entre as danças gentis dos batalhões virgineos! Nem no vinho de Cós! nem no phalerno antigo! Nem debaixo da hera e myrtho dos triclinios!