«Saúda o Cesar—disse—o athleta moribundo, antes de abandonar o amphitheatro, o mundo, onde a flor do Ideal nunca viceja e medra. Eu pois que vou morrer, inevitavelmente, faço uma saudação extranha e dissidente: —Saude, ó meu Amor! meu Ideal de pedra!»
Depois olhou o Sol. Em meio da carreira elle vinha imitando o olho d'um dragão. —E, ah! então relembrou-lhe a sua vida inteira, sua dôr, sua morte, a sua solidão, a sua historia triste e vida aventureira, sem jamais encontrar no mundo um coração!
Lembrou-lhe tudo: a infancia, e o sonho descuidado na sua aldeia, em Chio, ao pé das carvalheiras, o seu exilio em Roma, e o tempo torturado sob o jugo servil das turbas extrangeiras, depois—a Gloria, o Circo, o seu amor frustrado, a musica da selva, e o choro das ribeiras!
Porque não fôra elle um rude marinheiro, luctando com o Mar, os Ventos, o Revez, sem recear da Plebe o grito carniceiro, nem temer o histrião calcando-o sob os pés, e, uma noite, morrer, por entre um nevoeiro, ou junto á loura amante, á lua das marés!?
Porque não fôra elle um lavrador queimado, d'essas almas virís, heroicas, e felizes, que conhecem sómente o feno do seu prado, nunca viram o mar e os ceus d'outros paizes, e que enterram ao pé d'um álamo copado, á boa luz do sol, debaixo das raizes!?
E de novo acudiu-lhe á triste mente cheia de saudades crueis, de rapidas lembranças, aquella grande cruz no monte da Judea, entre mulheres chorando e reluzentes lanças. —E, então, quiz ser um heroe, morrendo pela Idêa, e ouvindo uma mulher chorar de longas tranças.
Mas era um gladiador, um histrião sómente, escória de plebeus, e filho d'um liberto, do qual o Povo Rei olhava indifferente, sem magua a sua morte irremediavel, perto, como o leão contempla as nuvens do Orienta, ou como a esphinge fita a areia do deserto!
Não viria ninguem de terras bem distantes como veio a Jesus José d'Arimathêa trazer o esquife novo, os cheiros penetrantes, e o nitido lençol de preciosa teia, nem feririam o ar gritos dilacerantes quando o seu corpo vil rolasse pela areia!
Não ouviria mais, pelos serões d'outono, na tremula floresta o vento suspirar! E o seu corpo votado aos corvos e ao abandono não teria um bom campo, um monte ao pé do mar, aonda os manes seus saíssem do seu somno, ouvindo o rouxinol e o pescador cantar!
Tudo isto lhe acudiu negro e tumultuoso, rapido como um raio, ou sonho de mulher, doce como a visão d'um bom paiz saudoso ao naufrago que vê a esperança fallecer. Depois, com um sorriso extremo e doloroso, dispoz-se o gladiador, emfim, para morrer.