Toda a noute o sineiro tem secretos
Desejos de espreitar como é que eu passo!…
Imita o som dos sinos indescretos…
E canta, n'uma voz que abala os tectos,
Ao som das cambalhotas do palhaço!
E assim eu vivo só n'uma trapeira…
Onde as pennas das pombas deixam rastros…
Exposta todo o dia á soalheira,
E onde passo dormindo a vida inteira,
Nas visinhanças limpidas dos astros!
*BILHETE D'UM ESTUDANTE*
D'aquelle esguio telhado
—Onde tu sabes que eu moro,
Eu acho os astros d'um ouro
Já bastante mareado!
Nenhum d'elles val a trança
Dos teus cabellos compridos!
Por isso meu peito lança
Ao teu telhado gemidos!
Se eu fosse Deus, minha amada!
—Dar-te-hia Satan m'esfólle!—
Uma cartinha fechada,
Servindo de lacre o Sol.
Mas sou um predio em ruinas,
—Não tenho nada commigo,
Sou um deus feito mendigo,
Que tomo o sol ás esquinas.
Divago roto e contente!…
—Odeio um lente—e o Philyntho!
E sob este azul clemente,
Triumpho alegre e faminto!
Meus deuses são Vico e Dante!—
E gosto, no meu caminho,
Encontrar Minerva amante,
E as Musas cheias de vinho.
Como um barco sem amarra,
Navego, turgidas vellas,
E desafio as estrellas,
Á noute, sobre a guitarra!