Tu viveste contente e agasalhado
Entre os brilhantes, e as visões do gaz!
—Bem te importava a neve… e o ar gelado,
O Frio e a Fome… É tepido o Peccado!
Calvo amigo!… Venceu-te Satanaz!

Tornaste o Templo casa de penhores,
—Mas ninguem ora a Deus nas cathedraes!
E já cheios de lastimas e dôres,
Nós lemos mais nas petalas das flores
Do que em todas as folhas dos missaes!

Morre, morre, venal, sem um gemido!
—Nem podes, levantar as mãos aos ceus!
Ha muito que ris d'isso, aborrecido?
Em nada crêste, em nada!—Adeus vencido!
Morre ahi como um cão!—Vencido, adeus!

Morre, morre, na lucta, pois, soldado!
Corpo cheio de tedio e de bolor!
—Adeus, velho navio destroçado!
—Morre! antigo conviva do peccado!
—Faltou-te sempre Deus, a Lei e o Amor!

*AOS VENCEDORES*

Visto que tudo passa e as épicas memorias
Dos fortes, dos heroes, se vão cada vez mais,
Que tudo é luto e pó! ó vós que triumphaes
Não turbeis a razão nos vinhos das vãas glorias!

Não ergais alto a taça, á hora dos gemidos,
Esquecidos talvez nos gosos, nos regallos;
E não façaes jámais pastar vossos cavallos
Na herva que cobrir os ossos dos vencidos!

Não celebreis jámais as festas dos noivados,
Não encontreis na volta os lugubres cortejos!
—E se amardes, olhae que ao som dos vossos beijos
Não respondam da praça os ais dos fusilados!

Sim!—se venceste emfim, folgae todas as horas,
Mas deixae lastimar-se os orphãos, as amantes,
Nem façaes, junto a nós, altivos, triumphantes,
Pelas ruas demais tinir vossas esporas!

Pois toda a gloria é pó! toda a fortuna vã!—
—E nós lassos emfim dos prantos dolorosos,
Regámos já demais a terra—ó gloriosos
Vencedores! talvez,—vencidos d'amanhã!