Os deuses ou são mortos ou caídos,
Quaes duros aldeões dormindo as sestas,
Ou andam pelos astros perseguidos
Chorando os velhos tempos das florestas,
Os reis ressonam nas devassas festas:
Já os fructos do Mal estão crescidos:
Ó Sol, ha muito que tu já nos crestas!
E aos nossos ais o Ceu não tem ouvidos!
Ha muito já que o Olympo está vazio,
E no seio d'um astro immenso e frio
É morto o Deus do Testamento Velho.
Apenas sobre o mundo eterno e afflicto,
Procura Fausto o x do infinito,
E Satan dorme em cima do Evangelho.
*OS SANTOS*
Les saints arrachaient leurs auréoles.
(Dubois)
Viam-nos caminhar, exilados da luz,
As grandes povoações, as rochas, as paisagens.
E os corvos, os fieis amantes das carnagens,
Estos magros heroes, paladins de Jesus.
Andavam rotos, vis, os pés chagados, nús.
Finavam-se a rezar ante as santas imagens,
E ouviam-nos bradar no meio das folhagens:
—Ó arvores em flor! vós sois esquife e cruz!
Onde estaes hoje vós? nas grutas dos planetas,
Inda hoje rezaes, ó pallidos ascetas,
Luzes vivas da Lei! martyres solitarios?
Na terra não; que ha muito a Materia nos nutre,
E nem no Ceu talvez;—no entanto o negro abutre
Tem saudades de vós nas cristas dos calvarios!