A miseria é fatal! dorida farça escura
Que termina o christão latim da sepultura!

E assim pensava só, vestida de tristeza
A nervosa mulher, n'aquella natureza
Sombria, dura, má; por entre aquelles gelos,
E aquelle vento cru rasgando-lhe os cabellos:

«Ella nascera só para a dôr!—da Desgraça
Ha muito havia já que lhe amargára a taça!
Não conhecera nunca os risos e agasalhos;
—Os miseraveis Deus só faz para os trabalhos!

E, áquella hora, talvez, felizes e contentes,
Cheios do bom calor os ricos indolentes
Comeriam, á luz das vélas perfumadas,
Nas mesas sensuaes; e em quanto nas estradas
Pelos atalhos máus e as veredas sombrias,
Ella ia a tiritar por entre as nevoas frías.
Sem pão, sem luz, sem Deus—alegres satisfeitos,
Elles riam, talvez, da chuva nos seus leitos!

O sol d'elles é bom!—Nos duros ceus serenos
Parece que não ha um Deus para os pequenos!»

E continuava a errar por campos, por florestas;
Era o inverno cruel, tinham-se ido as giestas;
Iam sangrando os pés nos asperos espinhos;
A neve amortalhava os lividos caminhos.

«Ah como os ricos são serenos e felizes!
—Elles sordidos, vis, podem comer raizes,
Não ter lume nem pão, andarem macilentos
Ás nevoas e aos soes e aos gelos dos relentos;
São os parias, os Jobs, os vis—e rejeitados
Como os mortos que traz o mar esverdeados!

E as mães se não serão leaes, boas, contentes!
Sempre os filhos com pão, os filhos sempre quentes,
Cheios d'amor e sol, vestidos de cuidados
De beijos, d'affeições, d'arminhos, de bordados,
Amados seraphins, olympicos amores,
E áquella hora talvez em leitos como em flores;»
—Em quanto os seus, da fome encovados, immundos,
Tremendo d'ella ao pé sublimes e profundos,
«Sem pão, talvez sem pae, sem leito brando e leve,
Choravam semi-nús, descalços pela neve!»

Em toda a parte a neve amortalhava o sollo!

Por fim cada vez mais chorava o filho ao collo;
Não rompia o luar, não tremia uma estrella;
Nem mesmo o proprio ceu se amerciava d'ella;
Lembrou-lhe as lendas más de mortos e de roubos;
E ouviu-se já mais perto uivar de fome os lobos.