Paravam aldeões, lavradores crestados;
Vinham á porta as mães, fiando o linho fino;
E os magros charlatães viam passar, pasmados,
Na sombra d'um cavallo o extremo paladino.

Dançavam os truões; as sujas enxurradas
Com a lodosa voz, perguntavam: Que é isto?—
Satan n'um corucheu, dizia ás gargalhadas:
—Ó campeão do Bem! ó victima do Christo!

*O PUBLICANO*

Ils erraient sales et immonds, et avaient des dévotions hypocrites
(Dubois)

Um graõ doutor da Lei dizia ao publicano,
Junto ao atrio do templo, em tempos da Judea,
Tambem tu vens orar, publicano sereia,
A tua casa ardeu, ou deu na vinha o damno?

Jejuas tu agora e resas todo o anno,
Tu que levas o pobre e o orphão á cadeia,
Que tiras á viuvez o pão, o leito, e a teia,
Tu que és avaro e vil, pagão como um Romano?!

Que não resas como eu, que nunca vi desfeito
Dos compridos jejuns, nem macerar o peito;
E que hospedas Satan, como o antigo Saul!

Não vês como estou sempre erguendo ao Ceu os braços?
—O publicano então, disse, olhando os espaços:
«Tambem os poços são voltados para o Azul!»

*A LYRA DE NERO*

Nos seus jardins pagãos, entre archotes humanos,
Na lyra de marfim sobre as cordas douradas,
Nero vinha cantar ás noutes estrelladas,
Elegias d'amor e canticos thebanos.