*NA RUA*

Veijo-a sempre passar séria, constante,
—Ás vezes, inclinada na janella,—
Tranquilla, fria, e pallido o semblante,
Como uma santa triste de capella.

Seu riso sem callor como o brilhante
No nosso labio o proprio riso gella,
E ella nasceu para chorar diante
D'um Christo n'uma estreita e escura cella.

Seu olhar virginal como as crianças
Jamais disse do amor as cousas mansas;
Jamais vergou da Força ao choque rude.

Abrasa-a um fogo divinal secreto!— eu sinto, mal a avisto, ao seu aspecto, O brio intenso e negro da Virtude.

*PHANTASIAS DA LUA*

Terret, lustrat, agit proserpiua, Luna, Diana, Ima, supernas,
feras, sceptro, fulgore, sagitta.
(Distico de Hieronim)

Hontem fui atravez dos arvoredos,
—Os bons carvalhos épicos rugosos!—
Com ella, como dous novos esposos,
—E a lua então contou-nos mil segredos!—

Ella vinha estreitada contra mim—
E atravez das veredas seculares,
Dava a lua umas sombras singulares
Á sua alva botinha de setim!…

Não haviam estatuas nas veredas,
—As estatuas crueis entre as ramagens!—
E ouvia-se o ranger das suas sedas
Sobre as folhas,—segindo-a como uns pagens.