(Á memoria de J. M. Fernandes)

Parce diis

Eu nunca os insultei!… Se estão emfim vencidos
Silencio! Cubra luto a natureza inteira!
Nuvens dillacerae os pallidos vestidos!
Verte gotas de sangue, ó flor da larangeira!

Onde estaes, onde estaes!—Extactica palmeira,
Viste acaso passar os grandes foragidos?
Onde estão Zeus Jesus?! Velhos cedros erguidos!
Nuvens, ventos e mar, guardae sua poeira!

Deixae-os descansar!—Luzentes mariposas,
Cuidado! não piqueis o coração das rosas!
Lavrador cava a Terra, a Terra, devagar!…

Silencio! Orpheu, Jesus, dormem no seu mysterio!
—A Natureza é toda um vasto cemiterio!
Eu nunca os insultei!—Deixae-os repousar!

*DEBAIXO DAS HERVAS*

Podesse ir eu comtigo que m'encantas
Como um vinho, no pó da terra dura,
Dormir ambos na mesma sepultura,
Entre os braços das hervas e das plantas?

Dormir no mesmo leito, e a mesma cova
Sentir os nossos pallidos abraços,
De noite, quando branca nos espaços,
Nas hervas desmaiasse a lua nova.

E aquellas tristes cousas que disseram
Os meus olhos nos teus, adormecidos,
Dizel-as outra vez, já confundidos
Na poeira d'aquelles que morreram.