[IX]

De tão ameno passeio na alva da vida chego de repente á escarpa de um precipicio, d'onde é inevitavel o despenho para um abysmo.

Encetava eu apenas a carreira do estudo, tão menino, tão menino, que o ouvirem-me já ler, e verem-me formar caractéres, era (nunca a minha vaidade o esqueceu) um thema de admirações e de felizes prognosticos para os parentes e amigos da familia. De repente outra doença, mais terrivel que a primeira, e menos esconjuravel do que ella, não paga com martyrisar-me, não contente de balançar-me por um fio largos mezes entre a vida e a morte, me atira vivo para um sepulcro! Eu respirava; mas os bellos olhos,[{26}] idolatras das flores e de Amalia, e vangloria de minha mãe, não sabiam se havia ainda no ceo o sol de Deus! É impossivel recordar-me d'esse prazo, prazo de não sei quantas eternidades, sem que ainda agora o coração se me confranja.

Imaginae um homem á hora em que se fosse embarcar n'um bergantim doirado, por um mar de prata, com virações balsamicas dos vergeis da terra, cuidando já velejar horizonte em fóra para um mundo de delicias... e lançado de improviso no mais fundo subterraneo de uma torre. Esse homem tão desafortunado, e desafortunado tão sem culpa, que nem ainda era homem, fui-o eu; e tanto mais sem-ventura, quanto ninguem então, nem eu por conseguinte, me julgava possivel a ressurreição, e a soltura.

Convalesci; d'esta vez sem os soccorros do campo. Tinha as forças e a edade para folgar, tinha o desejo e a precisão do movimento, da convivencia, da fraternisação geral, da conquista, emfim, que pelos olhos se opera de continuo nos inexhauriveis dominios da Natureza e da sociedade; não podia permanecer immovel; mas o meu carcere sem lanterna me seguia por toda a parte. A ave da poesia, que me pipilava dentro, debatia-se contra as grades, quando ouvia lá de fóra estrondear a vida festival, e pelo ecco deshumano das suas vozes se lhe revelava o sem numero de bellas coisas, que até os insectos e vermes senhoreavam pela vista.

[X]

Dera-me a Providencia, entre meus irmãos, um, dois annos mais novo do que eu, cuja indole sympathica inteiramente com a minha, cujos gostos em admiravel harmonia com os meus, nos constituiam mais que irmãos,—duas metades inseparaveis do mesmo todo. Ardia tambem n'elle a faisca sagrada. Não era tudo o palpitar o coração de cada um dentro no peito do outro; os nossos espiritos se adivinhavam de parte a parte; a nossa conversação tinha... (¿como hei-de dizer isto?) o que quer que fosse de um solilóquio, ou de um cantar ao ecco. Levava-lhe eu a vantagem de vinte e quatro mezes mais, elle me levava a de mais um sentido. Havia equilibrio, e compensação; cada um dava, e cada um recebia. Este mesmo interesse[{27}] mutuo contribuia para a espontaneidade da nossa fuzão necessaria e suavissima.

Chegou a edade dos estudos. Era tempo de aparelhar com as chamadas humanidades para as sciencias. ¡Que inveja e que tristeza, quando meus irmãos, ambos mais novos do que eu, sahiram pela primeira vez deixando-me só para se irem inscrever na classe de latim! Permittiu-se-me accompanhal-os; attendi; devorei; li pelos ouvidos; corri aposta com os mais applicados.

O preceptor, bom e honrado velho, que, trinta annos havia, professava com devoção o idioma de Cicero e Virgilio, observa a minha attenção; interroga-me curioso; reconhece e declara não ter discipulo que mais em cheio haja absorvido as suas doutrinas.

D'essa hora em deante fui eu o filho adoptivo, o predilecto, o mimoso, do seu enthusiastico romanismo. Não só erudito de amplos cabedaes, mas poeta, poeta elle mesmo, poeta utriusque linguæ, julgou reconhecer em mim, pelo modo como lhe eu traduzia as paginas inspiradas que elle me lia com fogo, e pela promptidão, sobre tudo, com que eu lhe restituia nos versos originaes os trechos que elle para isso me recitava das Musas cesáreas reduzidos a proza portugueza, julgou, digo, reconhecer uma indole fadada para a poesia; e pôz com generoso exforço peito a cultival-a.