Depois que entre os abraços delirantes
de todos os que amei findar meus dias,
sepultae-me n'um valle ignoto e fertil.
Para marcar da sepultura o sitio,
sobre o cadaver que vos foi tão caro
mangeronas plantae, cuja verdura
em roda fecham variados lirios.
Na raiz funda da soberba olaia
poise a minha cabeça, e o tronco amigo
sobre mim curve a copa florescente.
Mil piteiras unidas, ostentando
na hastea vaidosa as flores amarellas,
em quadrado não grande me defendam
das incursões das cabras roedoras.
Em meu tronco se escreva este epitaphio:
Foi poeta amador da Natureza:
d'entre as sombras ancioso a procurava,
qual terno amante a bella fugitiva.
Sobre isto pendurae sonora flauta,
que se revolva á discreção do vento.
Não cerque os ossos meus, não m'os ensombre,
nem teixo nem cipreste; arvores quatro
quizera só no meu jardim de morte.
N'um canto a laranjeira graciosa,
que mescla util e doce, a flor e o fructo;
n'outro a figueira sob as amplas folhas
modesta occulte seus nectáreos mimos;
defronte um pecegueiro em fructos mostre
que amavel é pudor, quando enche faces
de penugem subtil inda cobertas;
no ultimo canto... (a escolha me confunde)
plantae no ultimo canto uma ginjeira;
é a arvore da infancia, até na altura;
d'esta por sua mão colhe um menino
a mui ridente baga, e ri de ufano.
Alguns tempos depois que a fria terra
meus restos encerrar, á minha olaia
vós, meus amigos, vós dareis meu nome,
pois de mim se nutriu, e eu serei n'ella.
Dos guerreiros nos tumulos afiem
faminta espada os barbaros guerreiros;
no sepulcro do sabio o sabio estude;[{33}]
e dos Reis nos marmoreos monumentos
vá sonhar a ambição grandeza e pompas;
vós soltos de freneticas loucuras
aqui vireis mil vezes visitar-me,
na amizade pensar que nos unira,
e unir-nos deverá transposto o Lethes.
¿Por que me interrompeis com taes suspiros?
¡ah! deixae-me acabar. Quando sentados
em torno a mim na flórida alcatifa,
guardardes meditando alto silencio,
se d'entre as mangeronas que me cobrem
sahir acaso a borboleta errante,
¿não vereis n'ella o espirito do amigo
que vem gozar do sol a claridade?
Quando o suave rouxinol de noite
da minha olaia gorgear nos ramos,
¿não pensareis, de santo horror tranzidos,
que feito rouxinol, meus cantos sólto?
Sim, pensareis, e erguendo-se inspirado
algum lhe ha-de bradar: «¡Oh! ¡meu amigo!»
Responderão: «Oh meu amigo» os bosques;
e vós direis que o meu phantasma errante,
da argentea lua á muda claridade,
á conhecida voz d'alem responde,
e em tudo encontrareis a imagem minha.
Se inda então meus costumes vos lembrarem,
se vos lembrar meu coração piedoso,
velae que em meu retiro as bellas aves
de caçador cruel cantem seguras;
Amor, o leve Amor, com arco d'oiro,
só elle, e mais ninguem logre atirar-lhes;
careço de amorosa melodia
que me poetize o somno derradeiro;
morto que nada tem, preciza d'estas
pobres delicias rusticas, se folga
que a namorada moça, o terno amante,
juntos, ou sós, a visitál-o acudam.
Então ao som de languidos suspiros,
de alegres cantos, de amorosos versos,
de ternas queixas, de perdões suaves,
muitas vezes contente a minha sombra,
formando ao pôr do sol vermelha nuvem,
girará n'estes ares revolvendo
da passada existencia almas lembranças.[{34}]
Andaram tempos. Amores mais serios, mais vastos, mais duradoiros, mais uteis, ainda que menos entendidos das turbas a quem se referiam, inspiraram já outros desejos:
Ó terra de Colombo, um navio de esmola
do abysmo te evocou, e aurea brotaste á luz.
Por outra regia Heroina esmolada uma escola
vai transformar-te em ceos, terra de Santa Cruz.
E eu, que já uma vez, largando o patrio ninho,
romeiro do progresso em balde te busquei,
retomarei de novo o undívago caminho,
e irei juntar meu hymno ao seu triumpho; irei
pender na escola-templo os festões da poesia,
e, novo Simeão, findar a vida em paz.
Onde o homem que se humana affoito invoca o dia
direi:—«A patria é esta; aqui viver me apraz;
«apraz-me aqui morrer, onde as mães porventura
co'os filhos pela mão me hão-de vir visitar;
saudades esparzir na minha sepultura,
e dizer: Este sim, que soube o que era amar.»
Passaram tempos ainda, e até essa esperança consolativa se desfloriu. Ouvi o esmorecimento não já cantar, mas gemer, no seio da amizade:[[1]]
«Depois vem a reparação, a rehabilitação, não ha duvida. Do sepulcro brota o loiro, e a posteridade amarra a elle os inimigos dos amigos dos homens, os areopagitas idolatras envenenadores dos Socrates crentes. Mas as cinzas não sentem; as estatuas não vêem nem ouvem.
«O premio que eu devaneava a principio, quando via tão ás claras a bondade da obra que estava fazendo, era que os filhinhos, e as mães, me acompanhariam, chorando, ao cemiterio. A esse côro de amor imaginava que até o cadaver se me alegraria. Não dava aquelle triumpho posthumo pelas torrentes de carroagens e salvas funebres dos magnates.[{35}] Pois nem já com isso conto. Conseguiu esta gente, não sei se invejosa, se quê, diffundir tão copiosamente os seus preconceitos, escurecer em tanta maneira a luz do beneficio, que nem já espero aquillo. As mães ver-me-hão passar, sem saberem quão grande amigo de seus filhos e netos ali vai; e d'estes só porventura me irão dar despedida os que n'esta hora estão cantando e amando por essa meia duzia de escolas regeneradas».
[XIII]
Saiamos d'aqui a toda a pressa, leitores amigos, antes que nos degenere em paginas de santa mas feia indignação, um escripto que eu vos prometti e destinei todo pacifico e amoravel. Torno-me pois á minha Arcadia da mocidade, como o soldado mal ferido das guerras, e ainda mais dos menoscabos que dos golpes, se acolhe á quieta poisada em que se creou.
Apóz algumas tentativas incertas e incoherentes de lavor poetico, de que o publico se esqueceu, e eu quizera esquecer-me tambem, foi a fabula selvatica de Narciso e Ecco a primeira producção que me rebentou nativa, e verdadeiramente congénita áquella indole campestre e amoravel, que os successos e os estudos me tinham andado a preparar desde o principio. Nunca jámais essas singelas Heroides, impetuosamente e quasi de improviso brotadas (posso hoje dizer isto sem jactancia, e sem que os entendidos m'o descreiam) ousaram esperar o extraordinario, o excessivo favor com que foram recebidas, multiplicadas em edições sobre edições em Portugal e no Brazil.
¡Ora, quem poderia jámais lembrar-se de que um livrinho assim, todo vão, todo fabuloso, uma especie de globo de espuma, nascido de um sopro para boiar nas virações por alguns instantes, espelhando os verdes da terra e o azul de cima, e apagar-se para sempre, filho do nada restituido ao nada, conteria o germen de uma historia muito real!