Diz que muitas leguas ao largo de Ceylão já o gajeiro, embalado lá em cima no sol doirado do Mar Indico, percebe na fragrancia das virações tepidas as selvas de canelleiras da ilha, ainda occulta pela convexidade marinha, mas que vem correndo a encontrál-o. Assim me sentia eu levado para uma ilheta de amores, que, já aspirada, e ainda não descoberta, vinha por cima do seu mar de aljofares offertar-me, toda donosa e festiva, a hospedagem das suas sombras inebriativas. Um côro de sereias a meio caminho nos revelava, nos annunciava de parte a parte; e, assim como se vê tantas vezes no mar um navio pela acertada disposição das velas demandar a terra, com o mesmo vento que de lá sopra, a aura que me falava do meu porto, a mesma era que para lá me conduzia.
«Não ha cubiça do que se não conhece,» dizia um antigo poeta; extranha sentença; e para de poeta, muito mais extranha. A mui veridica historia que vos narro, duas vezes a desmentiu: nem a que me buscava me conhecia, nem eu conhecia a que buscava.
E nem por isso é a coisa tão para espantos como de fóra e á primeira vista se representa. ¡Que de consorcios se não teem celebrado, até com amor, entre ausentes, pela simples troca de retratos! ¿Que mancebo se poderá gabar de não ter sonhado muitas vezes, dormindo e acordado, com a heroina de um romance, ou com o invento prestigioso de um pintor? ¿Quem ha que não saiba o caso d'aquella moça franceza, que se finou de paixão pelo seu Telemaco? Ninguem o prediria a Fénelon, quando, accezo no santo amor do genero humano, compunha para a eternidade o seu homerico poema social. Temperae de um pouco de poesia a qualquer coração[{40}] (o nosso era temperado de muitissima) e vel-o-heis palpitar todo credulo por um phantasma. Para uma Virginia, este phantasma será Paulo; para um Paulo, Virginia; para um astronomo, um planeta, que elle, em nome do seu calculo, intima aos abysmos celestes lhe apresentem; os phantasmas das religiosas, são os anjos; os dos cenobitas, virgens do Empyrio; o dos artistas inspirados, a gloria na posteridade; o meu, tinha sido com effeito a Primavera, continuava a sel-o, mas agora humanada em figura feminil.
[XVI]
Se eu me não temesse da gente em prosa, que só acredita no que se palpa, havia de dizer que a aspiração para o bello desconhecido, para a perfeição ideal, entresonhada onde quer que seja, e com qualquer dos milhões de fórmas em que ella se póde metamorphosear, tanto não é extranha á Natureza, que não são unicamente os individuos privilegiados da nossa especie, os que a experimentam.
¿A rôla, a pomba, o rouxinol, a gemerem de saudade, a arrulharem de ternura, a gorgearem de immenso affecto, por que enlevam tanto, e tantas coisas inefaveis dizem aos animos devaneadores, senão porque os seus gemidos, suspiros, e canticos, almejam coisa diversa dos deleites faceis que os rodeiam, e que já possuem?
E depois: o Pae Commum não é avaro de seus dons, e ha-de folgar quando cada uma de suas minimas creaturas, alando-se quanto póde e sabe pela esphera dos gosos puros, se aproxima cada vez mais a Elle, que é a Summa Belleza, o Summo Bem, de que todos os bens são emanações ou reflexos.
¡O rouxinol, a pomba, e a rôla!... mas os insectos mesmos, ¿quem affirmará que não se pascem, como nós, ainda que muito longe de nós, á meza infinita, perenne, e perennemente renovada, do amor ideal?
¿Quem sabe até o que irá de mysterios nas flores e nas arvores!? ¡que idyllios, que elegias, que divinos poemas não correrão nas florestas com o murmurinho dos ventos em estrophes de aromas, intelligiveis[{41}] ás arvores congeneres, e ás flores da mesma especie!...
A carta, que de algures levantára vôo para algum fim, a carta que eu tinha nas mãos, tão candida, tão vivida, tão palpitante e amoravel, tão segura e tão certa, podia ser portanto, e, se o podia ser, era-o, uma especie de borboleta, que sahira das flores de uma alma solitaria e longinqua, para vir fecundar as da minha com um polen ardente e inesperado. Os effeitos que ella em mim produzia (logica ordinaria dos desejos) eram, á mingua de outras provas, uma vehemente presumpção de que o bom do papel vinha mensageiro leal, e não explorador perfido da minha credulidade; e entretanto mal sabia eu como lhe respondesse.