¡Oh! detende-vos ahi; detende-vos; abraçae-vos aos troncos floridos o mais pertinazmente que poderdes, que em principiando a descida... ¡adeus primavera! ¡adeus amores! ¡adeus sabedoria das loucuras! ¡adeus miragens e musicas da vida! ¡adeus de vós a vós mesmos! ¡e adeus esperanças de reascenderdes nunca mais! Os leitos de rosas e as corôas de violetas, já lá estão hospedando a outros viajantes que vos expulsaram. Resignae-vos, se podeis, á peregrinação, por sobre espinhos, e por entre saudades, cada vez mais espessas.

¡Ah! ide quantas, e quantas não vou eu já carregado para o ciprestal que lá ao fundo me negreja! Tiremos d'elle os olhos, e deixemol-os ir ao que lá nos fica perdido, ¡perdido para todo sempre!...[{43}]

[XVII]

Passeava eu pois com a minha apparição candida; sentava-a ao pé de mim; apertava-a nos meus braços; mostrava-a com ufania ao astro das noites, que não era mais puro, nem mais limpido; pedia-lhe, promettia-lhe uma ventura ainda não experimentada na terra; unificavamos pelas nossas confidencias o nosso passado; o nosso porvir entretecia-se n'um ser unico. O existir eu, era para mim, n'aquelles momentos extraordinarios, a mais solemne e convincente demonstração da existencia, da realidade, da indispensabilidade d'ella: ella existia, visto que eu existia.

Não riais: eu amava perfeitamente. «¡A um espectro!» não: a uma mulher, a uma mulher, de quem só o corpo, talvez, ali faltava, e cuja entidade moral e espiritual me pertencia me acompanhava, me velava.

¿Não me sentia eu repassado do calor das suas azas invisiveis? ¿não tirava a cada momento de cima do coração palpitante, para a rebeijar, a carta por onde tinham girado os seus olhos, em que poisára a sua mão, que aspirára tão de perto as exhalações do seu seio, do seu coração e da sua alma?

Aquella carta exercia incontestavelmente em mim um influxo magnetico, dominador, prestigioso; eu não sabia, nem tentava, explicál-o; mas negál-o, por um scepticismo ingrato e mal philosophico, muito menos o podia, muito menos ainda o desejava.

Sentia-me tão bem sob aquella dominação absoluta, era tão bom permanecer assim, que o meu voto summo seria que nunca mais amanhecesse, se as falsas alegrias da madrugada me haviam de dissipar tão afortunado Elysio.

Mysterios intimos da grande Isis, religião do amor, ¡infeliz quem vos não conhece! ¡mais infeliz quem chegou a conhecer-vos e vos perdeu! Esse é como o tronco sêcco: vicejou, florejou cem annos, cantou com todas as aves debaixo do céo, mimoso da terra, familiar com o sol, confidente das estrellas, abrigo aos amantes, depositário dos seus nomes e votos, suspirando suave com elles, inebriando-os com suas exhalações, promettendo-lhes, e promettendo-se, primaveras[{44}] sem numero e sem fim; depois, murchou; cortaram-n-o, cahiu; fizeram d'elle, se o não deixaram apodrecer, ou o não queimaram, um instrumento grosseiro para revolver o solo, um barco para transportar mercadorias; ou, quando mais bem livrado, um Satyro tosco, de quem riem os passageiros, ou uma apparencia de Bemaventurado para um altar. ¡Oh! ¡como aquelle arado, se podesse pensar, trocaria com alvoroço o seu prestimo, aquelle barco os seus serviços, aquelle Satyro o seu arremedo de riso, aquelle Santo a sua alampada e os incensos, por uma só das horas frivolas e sem historia, da arvore, que vivia, que amava, e que era amada!

A minha visão, a minha mulher sem nome, nem fórma determinada, prestes para receber qualquer fórma, e qualquer nome, era, se me podem bem entender isto, uma cifra, um symbolo, e o ideal da feminidade. No seu ser se epilogavam para mim todas as perfeições, todos os encantos dispartidos por quantas existem, existiram, ou poderão jámais existir; por isso a minha ternura para com ella era sem limites; era um amor, que n'aquellas horas de enthusiasmo abrangia todos os amores, presentes e futuros.