QUINTA DOS AZULEJOS (no Paço do Lumiar)
Tal como era ainda em 1862
Das innumeraveis cartas de ambas, que eu sabia de cór, me raiavam para dentro da alma as intuições de tudo que estavam de parte a parte pensando, sentindo, dizendo. Era o meu nome o centro fixo, em torno do qual volteavam todas as suas ideias, como um turbilhão de planetas de Venus, scintillantes, mas celestialmente immaculados. Tinham-me comsigo, como eu as tinha commigo. Maria e a sua satellite se animavam com meu fogo, e m'o reflectiam virginisado; irradiação argentina e mysteriosa, de que se formam sonhos candidos, transpirações de um coração que se coagulam em rosas, sobre as quaes logo outro se reclina.
Eram estas visões tão claras, e estes extasis tão reaes, que bem provavam haver no mundo, como diz Shakspeare, alguma coisa mais do que os philosophos presumem; havia por força uma corrente e contra corrente de affectos sympathicos e harmonicos d'ella para mim, e de mim para ella; fluidos ethereos e celestes, que a Sciencia ainda não descobriu, mas que pelos effeitos se manifestam.
Dizem que entre o Mediterraneo e o Atlantico, por baixo das aguas que passam contínuas pelo estreito, repassam encobertas outras tantas; são oppostas as direcções; mas os impetos caudalosos são eguaes, e não se contrariam. Cada mar toma quanto enviára, e restitue quanto recebêra. As columnas do non plus ultra ficam desmentidas. Os dois mares, graças a esta corrente e subcorrente, não são mais do que um só com dois álveos e duas denominações.
¿Estava Maria n'aquelle quarto? ¿ou n'outro, bem, bem longe? ¿Que importava esse accidente fortuito e impessoal? Longe ou perto, ali ou n'outra parte, estavamos, e sentiamos estar, em communicação directa. A corrente superior e clara, era para ella a dos meus transportes; para mim, a dos transportes—d'ella; mas ella e eu percebiamos não menos que enviavamos affagos, e que elles chegavam aonde se dirigiam.
¡Ai, hora incendida e imperiosa de um meio dia de verão! ¡hora em que os passaros se calam a dormitar a sesta debaixo das folhas mais espêssas, e as cortinas das alcovas se fecham! via-a eu estar-se recreando n'um crystallino banho de affectos, que eu[{90}] mesmo lhe andára enchendo, que a sua amiga lhe toldára de confidentes sombras, e onde a vigilancia de ambas não deixava penetrar olhos extranhos. Aquelle deleite, de que eu era tambem autor, me endeusava.
Estava fóra de mim, sem saber onde. Por uma d'essas incoherencias que tão frequentes são nos sonhos, o logar era muitos logares ao mesmo tempo: era Vairão; era a Capital; agora, uma sala entre uma bibliotheca e um jardim; logo, um refugio campestre; e os moradores de cada um d'estes paraizos, sempre os mesmos dois, e mais ninguem. O phantasma das primeiras noites do laranjal de Almedina, era agora uma verdadeira donzella, vivente como eu, incontestavel como eu, que me falava, que me respondia em voz humana, a quem eu apertava e beijava com fogo a mão elastica e macia.
Se algum som inesperado me quebrava a allucinação, e eu, reconhecendo o dormitorio, advertia na imprudencia de permanecer tão pertinazmente no mesmo pequeno espaço, retomava triste o meu passeio longo e solitario da porta do terreiro até a da sala vaga, e d'esta até á magnolia.
A pouco e pouco me revertiam as fugidas illusões; as duas cellas tornavam a ser o meu sacrario, o meu palacio, a minha Cythéra. Mais cauteloso então o somnambulo, em vez de parar, afrouxava e emmudecia, quanto lhe era possivel, o passo por diante do asylo dos seus mysterios; applicava o ouvido da alma, e tornava a perceber, em termos sempre novos, e com circumstancias sempre diversas, as mesmas confidencias que o enlevavam.