¡O meu Lago, disse eu! ¿e por que não? ¡se eu possui a pleno tudo aquillo, o possuo, e não ha força nem jurisprudencia que de tal me possam despojar![{93}] ¡Imaginavam os bons dos Conegos regrantes que eram elles os senhores d'aquelles dominios, mea regna!... e um sopro, que se levantou da parte do seculo, lhes sumiu todos os titulos de propriedade. Os meus não se escreveram em pergaminhos, e existem; e estão-se rindo de revoluções do mundo: mea regnas. ¿Sabeis porquê? porque a mim foi a Natureza, e seu filho o Amor, quem me fez a doação; e a elles, tinha-lh'a feito um chimerico direito regio sobre todo o solo, bens, e futuros, de nossa terra.

No dia em que os despediram, como illegitimos detentores de uma propriedade commum, perderem um gozo material; e nada mais perderam, porque posse espiritual, comparavel á minha, nunca elles a chegaram a tomar. Não era para elles que as aves cantavam contentamentos, que as arvores vicejavam esperanças, que as fontes murmuravam nomes de ausentes, que as virações calidas exhalavam phyltros, que os effluvios das flores namoravam, e que a solidão era povoada; tudo isto, quem o disfructava era o poeta, que o está ainda disfructando.

[XXXVI]

¡Que grande erro social, que nefando peccado de prosa, não foi: que na hora audaz, em que se arrancaram do solo os troncos seculares carcomidos e sêccos das Ordens religiosas, se não mettessem logo para o logar d'elles plantações novas, de optima qualidade, que tão bem haveriam pegado! Extirpavam um preterito que ensombrava e assombrava; bem era; ¡mas quantos queixumes e clamores se não teriam afogado á nascença, se logo semeassem, ali mesmo, futuros apropriados ás necessidades já conhecidas da presente edade, e das edades ulteriores!

¿Estes conventos-palacios, estas cêrcas-principados e paraizos, estas grossas rendas, por que se não applicaram a abrigar e manter, isto é, a salvar, recompensar, e aproveitar, poetas, artistas, e sabios, que são, cada um a seu modo, outros tantos solitarios por vocação, e que do fundo dos seus ermos encantam o mundo com prodigios? Não ha Religiosos que mais deveras honrem e manifestem a Potencia Creadora. ¡Como a convivencia quotidiana,[{94}] de todas as horas, diurna e nocturna, com tantos engenhos e talentos variadissimos, fecundaria a cada um com o polen de todos! ¡Como o pintor influiria no poeta, o poeta no musico, o musico no estatuario, o estatuario no historiador, o historiador no philosopho, o philosopho no moralista! ¡Como os bisonhos reaqueceriam com o seu fogo aos veteranos! ¡e os invalidos, se os lá houvesse, encaminhariam com a sua experiencia ás aguias no seu primeiro adejar á borda do ninho!

Então sim, que todo este maravilhoso poema de Deus, chamado Creação, no qual todas as artes se travam e permutam em harmoniosa competencia, seria lido se traduzido em voz alta ás multidões; e em quanto o mundo physico se dilatasse em riquezas e commodidades palpaveis, haveria, aqui e acolá, grupos seriamente religiosos, que lhe estariam elaborando ares mais respiraveis para o espirito.

Não é, não é utopia; que o digam, e infinitamente a fortiori, os caudaes litterarios e scientificos, de que foi matriz a ordem Benedictina.

Depois de cahido o colosso monacal, sepultado no desprêso, quasi no esquecimento, e recoberto com montanhas de odios como o Typheu sob os promontorios da Sicilia, fôra valentia covarde hoje em dia, zêlo superfluo, e actividade ociosa e ridicula, restaurar o processo condemnatorio das Ordens religiosas, já trancado. Permitta-se-nos entretanto ponderar em proveito da ideia que aventavamos: ¡quão inuteis, comparados com estas congregações de sabios, de artistas, de poetas, não eram, por exemplo, aquelles reclusos de Santa Cruz de Coimbra! ¿Que beneficios lhes deveu o mundo em tantos seculos? ¿que vestigio deixaram da sua existencia? ¿que tradição, ao menos, de santidade? ¿Alcançámos nós ali algum successor de S. Theotonio, ou de Santo Antonio, d'este sympathico e popular Santo Antonio, que experimentou Santa Cruz e a refugiu por mal conforme ao seu espirito humilde e penitente? De todo em todo, nada.

Estava sendo um feixe de homens absolutamente negativos:—nem illustrados, nem ignaros; nem aristocratas, nem democratas; nem beneficos, nem maleficos; nem do povoado, nem do ermo; nem desconsolados, nem contentes; nem escandalosos, nem[{95}] edificativos. Apenas tinham de vida quanto bastava para não serem enterrados. O seu Prior subia uma vez por anno á Universidade, a abrir como Cancellario a sala dos exames privados, e voltava para a hybernação. Mostravam a sua livraria, como os tumulos dos dois Monarchas: sem tomarem d'elles, nem d'ella, coisa alguma; mostravam o seu santuario, como a espada de D. Affonso I: tudo reliquias sem virtude excitativa; mostravam as suas quintas com desvanecimento, mas bocejando. As Imagens de pedra, lá fóra, na frontaria da egreja, geladas e immoveis entre ninhos e hervinhas floridas, não eram menos insensiveis do que elles n'este banho da Natureza tão viva e voluptuosa. Tanto lhes diziam já a elles as harpas eólias das ramadas, como os vultos de marmore dos quatro Evangelistas, ou das tres Virtudes theologaes, o do seu Patriarcha Santo Agostinho, ou os conceitos mysticos estampados pelos azulejos. Indifferença para o Céo, indifferença para a terra.—Viver tal não valia a pena.

Quando o anjo da espada de fogo os pôz fóra do eden, só poderam levar saudades do ocio descuidoso e farto que se lhes acabava; mas que deixasse nenhum vacuo a sua ausencia.... não deixou de certo. Não houve perda; mas podéra ter havido lucro, se, como vinhamos conversando, áquelle solipsismo de todo o ponto esteril, tivera succedido uma congregação nova:—a dos crentes no bello, a dos devotos das artes, das sciencias, da poesia; e dos que tecem coroas de luz para a civilisação.