O que tu pedias á Rainha fabulosa das Musas, haver-t'o-hia liberalisado, sem rogos, a esclarecida previdencia da Nação, então devéras tua, e de todos os que, como tu, se desvelam pela engrandecer.

[XXXVII]

Assaz e de sobra tenho sonhado; levantemo-nos, que são horas de nos irmos chegando ao fim da nossa jornada.

Além de Santa Cruz, outros muitos sitios, onde o acaso me levou pelos arredores de Coimbra, e mais longe, vieram entretecer na tela do meu permanente affecto os bordados das suas peculiares inspirações.

As Ruinas do Mosteiro, por exemplo, nasceram da contemplação melancolica dos restos do convento de Santa Clara, á beira do Mondego[[4]], e de uma visita de passagem aos destroços de um cenobio de monjas, não sei já de que Ordem, em Moimenta da Beira.

As Duas Palmeiras, colhi-as n'uma excursão á magnifica matta do Bussaco.[{98}]

A Rega dos pomares, deu-m'a ao descahir de um dia de verão a quinta suburbana das Setes Fontes.

A Noite do estio, passou-se me tal em realidade na quinta de Santa Margarida, n'um cedral que lá havia n'esse tempo, e já não ha, bem ao rés do Mondego. Era a noite (¡se podiam esquecer coisas d'estas!) era a classica noite da romaria annual do Senhor da Serra, quando bandos de peregrinos e peregrinas de longe, de muito longe, trajados de gala á moda de suas terras, enramados de verde, seguindo as violas, e alternando nas cantigas a devoção e os amores, veem pernoitar na cidade, pelas varzeas, pela ponte, pelas quintas, para seguirem juntos para a serra em começando o primeiro desmaiar de estrella na antemanhan.

Até a Feiticeira (¡quem o crêra! crel-o-hão agora, porque de vergonhas ficticias ninguem se jacta) a Feiticeira mesma teve, sob os enfeitos ou disfarces da poesia, o seu fundo de realidade. Morava a boa da velha n'um casebre escuro da rua da Figueirinha; tinha fama, n'esse tempo, de ser uma das sibyllas que melhor atinavam com os futuros, e com mais certeira mão pescavam o perdido nos abysmos do passado. Rira-me eu sempre de gente d'esse lote, e espanto-me hoje de quem se não ri d'ella; mas poeta, criado com os supersticiosos Romanos, amante e com tão poucas certezas fixas a que me apegar, disse um dia entre mim:

................... quid tentasse nocebit?