A imprensa no ermo, a imprensa na Residencia parochial, especie de cabana disfarçada com limeiras e rosas, não podia deixar de ser uma imprensa util, séria, e dadivosa; e ¡lembrasse-se ella de o não ser! Gostava eu de ver como se avinha para isso com o pastorinho S. Mamede, seu visinho paredes meias, com a pia dos baptisados tão limpida, com a matta além tão inoffensiva, com as sepulturas aos pés a exhalarem[{112}] paz e bom conselho, com os passarinhos a cantarem festa, com o sol franco por cima da cabeça a proclamar: «Vivei e amae: vede o mundo que eu vos mostro como é formoso; aproveitae-o, e glorificae ao nosso Creador.»

Os livrinhos de tal officina talvez não alongassem vôo até ás cidades (flôres de urze e amoras de silva não se levam ao mercado); mas abundariam gratuitos, inspirativos, e bemquistos, por todas as casinhas da parochia: por baixo dos tectos de palha ou lageas, como por baixo da riqueza das telhas rubras de valladío, ou da opulencia fabulosa dos tres ou quatro telhados moiriscados.

A estante do Ecclesiastico hospedaria fraternalmente entre os breviarios, o Flos Sanctorum, e as folhinhas de reza, estes opusculos do seculo. Os paes de familias os depositariam, depois de lidos, para se tornarem muitas vezes a reler, na papeleira por baixo do seu oratorio. O pastor os folhearia, ruminando elle tambem nos campos do espirito, no meio do rebanho mais bem tratado. O operario na sua officina mostraria com satisfação, entre a sua ferramenta, estes instrumentos novos, aperfeiçoadores dos artefactos e do artifice. As séstas de verão, os serões do inverno, ganhariam encantos com as leituras em commum; nos testamentos figurariam como verba, a par com maiores haveres, os volumes, que assim se iriam accumulando multiplicados pelos filhos e netos pelos tempos fóra.

Depois, os domingos, os dias santos, e os tempos mortos para a lavoira, ¡quão bem se não empregariam na cosinha, na sala da Residencia, ou na sacristia por mais espaçosa, explicando á boa gente, já avida de saber, e que affluiria a esses passatempos como ás romarias, o que elles não tivessem podido por si mesmos explicar! que para isso ali estava á mão como auxiliar, ao pé do prelo uma livraria copiosa, e continuamente acrescentada.

Aos ambiciosos do latim, do francez, da historia, das viagens, das noticias do mundo, ou mesmo da poesia, ali se dariam tambem com a melhor vontade licções, livros, conselhos.

¡Quem sabe o que em trinta, quarenta ou cincoenta annos, se não crearia por ali, onde tão pouco em tantos seculos se adiantára! ¡Que novos e prosperrimas[{113}] culturas pelos valles e cabeços escalvados! ¡que fabricas, talvez, servidas por aquelles rios, por emquanto ociosos! ¡que augmento nos haveres, na população, na civilidade, na convivencia! ¡que festas novas entre estes montanhezes! ¡Quantas á imitação d'aquell'outras da Suissa em honra da velhice, da virtude e dos serviços prestados á communidade pelos corações bons, pelos espiritos eleitos!

O nosso amor proprio, tanto como a nossa consciencia, aspirava a peito cheio virações de Eden, calculando e preparando tantas venturas, e tão faceis de si, quando deveras se desejam.

Até já previamos, como consequencia summamente provavel de toda esta excitação, que umas terras assim, de que nunca se ouvira soar um unico nome distincto para além do seu ultimo tojal, viriam a contribuir como as outras para o lustre futuro da Patria, com talentos aproveitados em sciencias, em artes, em litteratura, em poesia.

Dilatei-me agora n'isto, porque me pareceu que não fazia mal ficar para ahi este pequeno rebate aos curas d'almas, que para a civilisação podem mais e muito mais do que se imagina, e do que presumem elles proprios. Assim se tratasse de os criar bem, de os instruir muito, de os escolher com escrupulo, e distribuil-os com acerto pelas parochias fóra de mão, em que tudo, ou quasi tudo, jaz ainda por tentar[[5]].

[XLIII]