«Podiamos edificar aqui desde já uma casinha aprazivel, um verdadeiro ninho de andorinhas para o novo casal; mas possivel é, bem sabes, que não seja esta a terra que nos ha-de comer os ossos; e n'esse caso, o havermos lançado aqui raizes mais fundas, teria sido tornarmo-nos mais doloroso o arrancamento. Para gente sobria e simples, como nós, é de sobra o presbyterio; bastará guarnecermol-o de mais roseiras, abrirmos-lhe no meio do pateo o luxo de um tanque para espelho, e para pompa erigirmos ao fundo das laranjeiras o elegante pombal candido que projectavamos, e de cujas moradoras hade ella ser a providencia e a alegria, como de toda a vivenda.

«Em summa; os nossos haveres permittem-nos, sem taxa de temeridade, a realisação d'esta encantadora utopia, que talvez nos abra passo á realisação das tantas outras que planejâmos! Para obras de beneficencia, de humanidade e de civilisação, nunca é de mais uma conselheira, e então de tão alto juizo,[{118}] de coração tão amante, e amadurecida pelos livros e pela solidão.»—

Era musica celestial tudo isto que lhe eu escutava; apertál-o bem apertado ao peito, foi toda a minha resposta de assentimento.

Verdade verdade:—está-me vexando, apesar do que estabeleci no começo d'estas confidencias, tão diffuso falar sobre tão apoucado sujeito, que, por mais que eu diga, saiba e sinta, não ser eu, sempre hão-de tomar por mim; e portanto, dobrada censura: sobre importuno, immodesto. Paciencia. Os mal affeiçoados muito ha já que hão-de ter dado a sua curiosidade por satisfeita, e cerrado o livro; os outros, que vieram commigo até aqui, são mais soffridos de genio, e são amigos; hão-de-me acompanhar já agora com indulgencia até ao fim; e se a esses mesmo enfado, fique o restante da narração como soliloquio de um saudoso, ou dialogo de memorias tristes entre um vivo e dois finados.

[XLVI]

Tinha-me a Real munificencia do Senhor D. João VI, já em 1819, collocado em posição de fortuna, para entre poetas, e poetas portuguezes, muito invejavel: dera-me a propriedade sem onus de um dos mais pingues officios de Justiça na Correição de Coimbra. Com essa renda vitalicia, que ainda hoje durára, se não fossem as uteis refórmas introduzidas no fôro depois de 34, podia eu ter folgadamente realisado desde todo o principio o meu consorcio com Maria; mas eu tinha feito voto anterior de mim para mim, e não queria quebral-o, de deixar sempre na casa paterna, integral e incondicionado, o usufruto d'aquelle rendimento. Não era generosidade; era simples dever. Tendo pois, como se não tivesse, facilmente se imagina ¡como eu ficaria por dentro com este raiar subito da Providencia, da Providencia encarnada em amor fraterno! A chave d'oiro do meu paraizo tinha-a eu posto d'onde a não podia retomar; meu irmão acabava de me entregar outra; e com tal melindre de affecto, como tudo que d'elle vinha para mim, que recusar-lh'a eu, fôra magoal-o mais a elle, do que a mim proprio.[{119}]

A casinha parecia-me transfigurada em albergue de fadas.

Respondeu-se ali mesmo á carta. Antonita estava cantando uma cantiga de amores a vinte passos de distancia; a alegria e a amizade cantava no coração de Augusto; no meu, cantavam o alvoroço, o enternecimento, a amizade. Era uma hora d'aquellas de que o Céo não empresta mais de uma ás existencias afortunadas.

A carta que eu então dictei para mensageira de tão boa nova, e a que tres dias depois se lia mysteriosamente no mesmo logar aos ultimos raios de um sol magnifico, existem ainda hoje, mas não pódem ser relidas; doer-me-hiam excessivamente; hão-de ser pelo contrario queimadas com todas as outras d'este romance intimo e sagrado, logo que eu tenha concluido o presente escripto. Se alguem não comprehender por si este melindre, paciencia; eu é que me não atrevo a explicar-lh'o.

A elegia Ermitagem da montanha tinha sido poucos dias antes phantasiada ali mesmo. Junto ao convento havia tambem serras, como já vos disse: