Ao homem grosseiro, pervertido, gasto, embrutecido, represente-se muito embora que a mulher, brotada para seus prazeres ephemeros, como as flores, não pode penetrar dentro em nós senão pelos olhos; feche-os, e escute: lá está ainda ella com a sua magia. Furte-lhe tambem os ouvidos, como Ulysses ás sereias; não a destruiu; o calor, os abraços, e os beijos, lhe revelarão completos os seus encantos. Não ouse ou não possa tocál-a; um halito, uma fragrancia subtil, que não é de flores, mas de vida,—que é mais que de vida, pois é do amor,—lhe dirá: aqui está o fruto para a tua avidez e para a tua sêde.

É porque a mulher, communhão perfeita do affecto, é toda para todos, e toda para cada um. Triumpha na luz, como n'uma auréola; enleva nos sons, como n'um cantico; insinua-se por cada sentido; infiltra-se por cada póro; não ha porta na alma que se lhe não franqueie. É a chamma electrica, para a qual não[{145}] ha resistencia nem muralhas. Fugi-lhe; esquivae-vos; sumi-vos nas entranhas da terra; lá mesmo sereis d'ella; vel-a-heis sorrir-vos, aquecer o vosso jazigo, bafejar cubiças ao vosso coração, fazer do vosso nada um universo, reerguer-vos para o Ceo, de que blasphemaveis.

Pelo que pertence em particular ao homem da nossa historia, eis aqui chãmente o que eu sei, e que não é muito.

Comprehendestes, cuido eu, como a grande Isis, a Natureza, a qual para nenhum de vós se despe de todos os seus veos, quiz ser ainda mais esquiva, mais recatada, mais avára para com elle, para com elle seu fervoroso adorador. Não se lhe furtou de todo; não apagou entre si e elle o sol, como já fizera com o seu Homero; mas annuveou-lh'o como para a solemnidade de um mysterio magico; e, mesclando trevas com luz, benigna e ainda mãe no seu rigor, lhe ensinou a adivinhál-a, a completar-lhe as lacunas das realidades com as phantasias, a estudar a um e um os seus pontos mais frisantes, e de inducção em inducção, de analogia em analogia, de probabilidade em probabilidade, a recompol-a, ou a creal-a, não verdadeira nem falsa, chimera organisada de certezas, hypothetica nos accessorios, incontestavel no essencial; retrato seu, imperfeito, mas reconhecivel, mas formoso, mas sympathico, mas inspirativo, mas sufficiente e sobejo para idolatrias.

Qual a Natureza lhe apparece e lhe poisa para modelo diante da lyra, tal lhe assoma diante do coração esta florida cifra da mãe Universal, o archétypo das perfeições: a mulher.

[LIV]

Mancebo, que me has-de ler curioso e condoido: ¿conheces tu porventura aquella que te embelleza e te fascina? não te pergunto pelos arcanos do seu interior, que ella propria não decifra; falo só do que só porventura te seduziu; falo da sua fórma externa; falo mesmo d'aquella porção exclusivamente que a arte não some em nuvens de tecidos preciosos, em auroras de mil cores, em espumas de rendas, em cascatas de oiro, de aljofares, de diamantes, cahos[{146}] esplendido que sonega um mundo de gentilezas a attrahir-te e a repulsar-te; falo unicamente do semblante; do semblante que emerge livre, dominador e risonho, por cima de tamanha cerração de enigmas. ¿Vês tu em realidade esse rosto que te encara com tão seductora franqueza, que para ti se banha nu em ondas de luz sob os lustres e sob o sol? ¡Pobre illudido! ¡Se o vidro augmentativo t'o averiguasse, talvez recuarias de espanto! a tez mimosa e córada, a tez que ambicionavas beijar tão lisa e tão perfeita, reconhecêral-a vasto mappa de cavernas e montanhas, de torrentes mal cobertas, de espessuras, homizio e pastagens de viventes, para quem mais que para ti foram fabricadas aquellas regiões incognitas. Com a apparição d'esse mundo de lindezas microscopicas, evocadas por um crystalzinho convexo, desappareceria a beldade que a Natureza, benignamente enganadora, te inculcava; o que a tua sciencia ganhava, o enthusiasmo do teu amor o perdia sem remedio. Decomposta em mil formosuras, aniquilára-se a formosura, que só á providencial, á calculada imperfeição dos teus orgãos tinha devido a existencia.

¡Bemdita sempre e em tudo a Bondade Infinita do Creador! ¡Que philosopho insensato se afoitaria a tomar-lhe contas para o censurar! Nem eu, nem eu proprio, tenho que murmurar de ser menor que o de outros muitos convivas o quinhão que o Pae da luz me concedeu no seu festim.

Cada qual vê a mulher pelo seu prisma, prismas todos differentes e todos illusorios. O meu, fundido de um crystal mais turvo, decifra-a, individua-a muito menos, é verdade; mas em compensação permitte-me á phantasia o completal-a com todos quantos primores sabe, que são infinitos.

¿Querereis dizer-me que são ficticios, que não são ella, esses primores? ficticios embora o sejam na origem; mas tornam-se d'ella, são ella mesma perante a alma e o coração que lh'os prestaram; é a mulher sem-senão, a mulher idealisada, a mulher só assim ascendida a grau de divindade, mulher exterior mais parecida por ventura com o espirito gentilissimo que lhe mora dentro, que o bando de máscaras femininas, mais ou menos imperfeitas, que enxameiam por esse mundo á procura sempre de homenagens convictas e duradoiras.[{147}]