As razões que me induziram a este sacrificio, rastreiam-n-as todos; o que n'elle soffri, tambem o calo, que não importa a pessoa alguma.

A pedra que o ha-de ficar commemorando, e que algum poeta ou alguma poetisa lá para o futuro em estio ou outono de amores folgará porventura de visitar com este livrinho na mão, dir-lhe-ha isto:

AQUI JAZEM AS CINZAS
DA CORRESPONDENCIA
DE
D. M. I. DE BAÊNA
COIMBRA PORTUGAL
E
A. F. DE CASTILHO
QUEIMADA N'ESTE MESMO LOGAR
AOS 25 DE AGOSTO
DE 1862[{150}]

[LVII]

Mais uma ou duas paginas para responder já agora ás ultimas curiosidades.

A 29 de Novembro de 1834, na parochial egreja do Salvador do mosteiro de Vairão, recebia eu emfim por minha legitima esposa a D. Maria Isabel de Baêna Coimbra Portugal. O orgão cantava não sei que jubilos tristes; as Religiosas choravam a perda da sua mais espirituosa, mais suave, e mais amavel companheira de tantos annos. A mão d'ella, tremia na minha; o alvoroço do seu interior, exhalava-se baixinho em monosyllabos humidos de lagrimas; eu padecia e gozava como homem que ia fugir com um thesoiro furtado. A boa D. Anna Lucinda não podéra assistir á ceremonia; ¡tanto a desejára em quanto só a vira no futuro! e agora... desamparavam-n-a as forças para a encarar; jazia doente na sua cella deserta. Maria tomou-o por agoiro. ¡Nunca ceo sem nuvem sobre alegrias humanas!

Dois annos, pouco mais, durou a nossa união sempre harmoniosa e intima; sempre tal, qual m'a haviam promettido os meus devaneios poeticos tão ambiciosos.

Ao longo d'esse breve praso, de que nunca me poderei esquecer, foi sempre Maria a melhor metade da minha alma; os olhos e voz para a minha leitura; a mão para a minha escripta; a inspiradora para os meus versos; a conselheira nas minhas incertezas; a vestal para o fogo das minhas pequenas ambições; a socia, a luz, a explicação dos meus passeios; o calor, a fragrancia e a musica da minha poisada; um enxerto da arvore da vida no meu teixo; o ecco do meu coração; o meu estro fóra de mim a mostrar-se-me, a abraçar-me, a não me perder hora nem minuto de dia nem de noite; ella, ufana, de mim como de uma gloria; eu, d'ella encantado como de uma felicidade.

Filhos são nós que apertam os vinculos naturaes entre o homem e a mulher. Teve o Céo por superfluo dar-nos filhos; estreitar-nos mais era impossivel. ¡Grande misericordia foi aquella! a pobre assim, levou para o Céo uma saudade unica.[{151}]

Uma enfermidade longa, durante a qual a sensibilidade de Maria, como clarão de alampada que se quer extinguir, me pareceu ainda mais viva, a pouco e pouco a arrastou até á borda dos desenganos, desenganos para ella e para todos; para mim não, que por instincto de vida, repulso constantemente, e até ultima, o crer na desgraça, o admittir-lhe mesmo a possibilidade.