NOTAS
á
Festa de Maio.
CANTO I.
[Pag. 204.] verso 4.º
Das Filhas de Nereo a mais formosa
Foi Galatéa candida e rosada.
Como das bagatelas que forçadamente tenho semeado por alguns d’esses Jornaes, que he o mesmo que escrever em folhas e atira-las ao ar, algumas haja que não mereção de todo perder-se, estas me pareceo i-las recolhendo a meus livros, por qualquer modo que fossem achando cabida, para não ser como a Sibilla de Cumas, que em uma vez se lhe desmandando com os ventos as folhas que tinha escritas, ja para sempre tirava d’ellas o sentido: neo ponere in ordine curat. Por isso traslado do Num. 3 do Jornal dos Amigos das Letras, todo o seguinte Artigo[15].
Antonii Feliciani de Castilho,
GALATEA: CARMEN.
Advertencia Preliminar
O fragmento latino que se vos offerece, sob o titulo de Galatea, he huma tentativa e nada mais: e quem mo quisesse haver a ostentação, não só mostrára quam pouco me conhece, mas ainda com atrocissima injúria me aggravaria. Discorridos são hoje mais de dez annos, depois que, desejoso de refrescar lembranças de conhecido com as Romanas Musas companheiras e alegria de minha infancia, me dei ao passatempo de metrificar em latim, ja os pensamentos que primeiros me occorrião, ja algum episodio de minhas proprias obrinhas; sendo assim, que esta fabula de Galatea a trasladei do Poema da Festa de Maio, no meu livro da Primavera. Sei bem que não ha hoje, e especialmente por cá, leitores para o latim, sendo a final chegado o prazo de, com razão e sem o mínimo escrupulo, se poder chamar tal lingua morta e enterrada: sei mais que, inda mal, não respondem estes meus versos ao que eu anciára que elles fossem, e nem valem mais que uma boa parte dos ahi impressos na custosa Coléção de Poetas do nosso Padre Reis; e com tudo, a despeito d’estas duas tão fortes razões, e tão valentes para me deverem dissuadir, convim em que tão pobre couza se désse á estampa. Será, segundo muitas vezes se escreve em Prologos, para incitar engenhos a fazerem melhor? não. Pois será, como tambem em Prologos se usa de escrever, para que os Aristarchos me ensinem o que, o como, e o por onde devo corrigir e melhorar? menos; que não sei eu de um só que se hoje occupe com semelhantes vaidades. Como por tanto me livrarei da desmerecida taxa de presunçoso? confessando, como tambem em Prologos se costuma, mas d’esta vez com verdade, que o faço por obedecer a dezejos de pessoa, com quem muito me importa estar em tudo bem.