Que tem nossas mortaes no peito occultos,
Tem as Ninfas tambem &c.
Por estes versos começa uma torrente caudal de couzas vãs e doidas ácerca das mulheres, e relações dos dois sexos, que ora mais, ora menos turva, se vai alongando até pag. 254. A pezar de se devolver por leito de quasi proza, e por entre margens para meu gôsto mal assombradas, bom seria que por ellas nos podéramos ir detendo a pescar, e a examinar algumas das couzas mais graúdas que vão na chêa: serião questões apraziveis de ociosa filosofia, mas prometti no prologo despreza-las; perdoar-lhes-hemos, deixa-las ir seu caminho. Passem a seu salvo as regras de namorar á antiga; a arte não de amar mas de enredar e colher, como o são quantas com titulo de amar se tem escrito; a poligamia, menos de Mahometano do que de Tupinamba; o divorcio e ulteriores nupcias dos divorciados e divorciadas; a botecuda nudez dos sexos &c. La se avenhão como poderem todas essas puerilidades com seus inimigos, que se de minha Musa nascêrão, muito ha que eu e ella as desherdámos. O meu ponto agora he assentar boas pazes para sempre com as damas. Todas minhas Obras, não só esta, Cartas de Echo, Amor e Melancolia, Noite do Castello, Ciumes do Bardo, me devem ter perante ellas representado cavalleiro descortez de desleal poesia. Tempo he de mudar de cores, abjurar o erro, e para merecer o perdão, que ellas de puro boas concedem antes de pedido, romper lanças em favor de sua fama, não só contra inimigos, se os podem ter, mas contra mim proprio, pelas ter aggravado. He uma Nota estreita arena para tão singular duello: mas embora, que para outro dia e campo desafiado fica o eu mancebo desatinado e altivo d’outro tempo por mim grave, reflexivo e respeitoso; o eu versejador por mim pensador; o eu academico e solteiro por mim cazado e recolhido: emfim por mim conhecedor do terreno do combate o eu ignorante d’elle, a cuja face ja n’esta hora arremésso a luva, e lhe digo “Mentiste, e mercê de Deos e de minha Dama, provar-to-hei.” Mas pois que he forçado ficar para outro dia a pendencia, aqui não farei mais do que um pouco ensaiar-me para ella, campeando soltamente e esgremindo nos ares.
Nenhuma couza tem sido mais experimentada no mundo e mais vezes definida que o amor, nenhuma ha tão mal e imperfeitamente comprehendida como o amor. Fallo do amor dos homens, unico de que os homens podem fallar: o das mulheres he ainda mais incomprehensivel, e certamente muito mais espantoso, quando verdadeiro. O que pretende dar regras de amar, como alguns outros fizerão antes de mim, e como eu proprio supponho que pretendi, assemelha-se ao astronomo, que tendo endoidecido á força de ter velado as noites a observar os astros, presumisse, riscando órbitas com o lapis, constrangê-los a segui-las: as esferas e os affétos saem do nada ao sôpro de Deos, resplandecem com a sua luz propria e misteriosa, vão-se ora afastando ora aproximando de seus centros pelo caminho que sua natureza lhes ordena, eclipsão-se na hora prescrita, desappareceráõ quando Deos fôr servido; sem que em tudo isso haja querer, escolha, presciencia, ou conhecimento de nossa parte. Amamos uma mulher, e certa mulher; porque temos de a amar; porque he necessidade sua e nossa que a amemos; amamo-la pelo modo que a natureza quer e não outro, não he uma acção mas uma paixão: se a premião o premio he gratuito, se a punem he injusto o castigo, porque não recáem sôbre um effeito de eleição. Ama-se uma mulher, repito, sem o procurar, sem o cuidar, sem arbitrio, a despeito da razão, da vontade e dos votos, como á rosa, como á lua, como á harmonia, como aos sabores dos frutos deliciosos. Para ellas se vai como os rios dos montes para os valles, como a chamma para o ceo, como a pedra do ar para a terra, como o menino para os peitos da ama, como o coração para o prazer. N’estas occasioẽs todo em nós he extraordinario, e se o posso dizer, sobre-natural: sentimo-nos fôrças que não possuiamos para querer, seguir, abraçar e reter: o pensamento se torna infinito, porque o objéto que procurâmos, como uma metade nossa que nos foge, nos apparece infinito. Por dentro d’aquellas graças fisicas, de que os sentidos se namorão, imagina-se um mundo estranho e illimitado de perfeições, de que se namora a alma: ahi se dezeja tudo quanto he capaz de embellezar a vida; o dezejo he logo esperança, a esperança certeza, a certeza delirio, e novamente dezejos; e quem porá limites a dezejos, a delirios, a esperanças? O abrangimento do infinito da Divindade em um corpo humano não he misterio que o amor não saiba muito bem entender. He aqui o lugar de confessar que a este sobre-humano conceito, que da mulher amada se faz, mil vezes corresponde plenissima realidade.
Por mais que a natureza se aprimore em modelar, tornear, corar, amaciar, brunir, bafejar e endeozar o fisico da mulher, as suas graças, o seu merito, o seu ser de mulher não são esses dotes, sujeitos ao tempo e dependentes de um ar, assim como nas flores não são mel as pétalas vistosas e coradas, o cheiro suave e attrátivo, que o sol e o vento attenuão e desbaratão. Diz-se que as feiticeiras tem o seu encantamento em um novêlo; o novêlo do feitiço das mulheres está no seu coração e no seu espirito, que n’ellas he tambem coração. O coração da mulher não mora descançadamente reclinado no peito como o nosso, por toda sua alma esvoaça perdido de amor, gemendo de amor, como uma ave mãi e feliz por todos os ramos de um bosque de primavera: sente-se-lhe o frémito das azas, ouve-se-lhe a harmonia em tudo quanto diz, em tudo quanto cala, no que faz como no que deixa de fazer, no que pensa, recorda ou espera, nas lagrimas e no riso, no enfado e no contentamento, na vigilia e no sono. O coração lhe está á porta interior de cada sentido recebendo as impressões; para elle e por elle veẽm, para elle e por elle ouvem, para elle e por elle presencêão a natureza, communicão com ella e comnosco. Um sôpro divino formou a alma do homem, a da mulher de um beijo delicioso deveo ser formada.
Este afféto, esta doçura, esta, quero eu dizê-lo, feminidade da mulher são de tão alta natureza, tão estremes de liga, tão independentes do fim mesmo para que a providencia a destinou, que me parece ainda despojada de sentidos, poderia amar vehementemente como os espiritos angelicos. Que será quando os sentidos confluem, para atear com sua materia inflammavel este fogo celeste? ¿quando a Vestal, afrontando todo o futuro, deixa apagar no altar da Deoza de sua infancia a luz virginal que velou por tantos dias e noites? ¿quando na turbação insólita d’estas trevas desconhecidas, se entregou toda e com todo seu futuro ao ente que a implorou como Divindade, e que ella sabe e sente em si tornará feliz por cima de todas as felicidades? ¿quando uma vez encetou prazeres, cujo maior encanto para ella se da-los recebendo-os, e não os receber sem ao mesmo tempo consummar mais de um doloroso sacrificio? Oh então he o amar do amar! o afféto, que ja em profundeza não podia crescer, cresce em superficie, e trasborda todo e para toda a parte, como um perfume abundante; então he que sem voz pronunciou o sempre; que sentio apertar-se-lhe nas entranhas a indissolubilidade do consorcio, porque o amor de fantasia se fez realidade, de dezejo destino, de suspiro occulto gloria; a tudo tem ja direito porque ja deo tudo, não póde dezejar ser de outrem porque a outrem não teria tanto que dar. E he esta a grande differença da mulher ao homem, e do amor ao amor: o d’ella tem um abono e côr de eternidade, o nosso um elemento e uma côr de tempo. Podéra ser emblema do nosso, uma náo alterosa e possante, surta em uma bahia aprazivel, mercadejando e folgando com a terra, empavezando ufania de flammulas e galhardetes, aferrada ao fundo do mar com uma unha de ferro, mas podendo de uma hora para outra arranca-la ou picar a amarra, desfraldar as velas que sempre estão prestes, e vogar atravez de todas as ondas, por cima de todos os abismos, a mercadejar e folgar no extremo opposto do mundo: emquanto a feminil affeição, como barquinha contente e desambiciosa, feita para os ocios de sua enseada, coroada a pôpa ora de flores abertas ora de esperançosos verdes, sem deitar nenhuma ancora, não foge nunca d’entre aquellas margens conhecidas; por entre ellas vai e vem avoejando de contínuo, levando e trazendo sempre commodos e alegrias, sem curar que de sua barra em fóra haja outros mares, n’esses mares outras bahias; delicia-se na sua, onde tudo a festeja e saúda por seu nome, onde se entende com todos os ventos, todos os refugios conhece para o dia da tempestade. O amor do homem, com os sentidos satisfeitos muita vez se satisfaz e adormece; como o frizão dos Jogos Olímpicos, que chegado apoz violenta carreira a tocar na meta, surdo até ás vozes da gloria que esporeou, se estirava para repouzar ou para morrer. O amor da mulher, satisfeitos os sentidos, se restaura, resurge mais puro e extremoso, mais vivaz e promettedor; semelhante ás plantas, quando desfallecidas nos afrontamentos do verão se dessedentão com a chuva de uma nuvem que passsou, e viçosas reverdecem para embalsamar os ares de seu valle. Uma de muitas razões que para esta differença podem concorrer, he que n’essa hora adquirio a mulher direitos, o homem contrahio obrigações; as obrigações pezão, os direitos agradão, as obrigações limitão e apoucão, os direitos accrescentão e engrandecem. Trocarão-se os papeis na scena, o seguidor esquiva-se, a perseguida segue. O amor do homem he só amor, o amor da mulher he amor e amizade: elle, porque pertence ao mundo, á gloria e a tantas outras paixões, só tem meio coração, meia vontade, meio tempo para dar á sua companheira; esta, separada do mundo pelo mesmo mundo e pela natureza, por isso mesmo mais raramente accessivel a outras paixões, dá ao seu amigo todo o coração, toda a vontade e toda a vida; dar-lhe-hia se podesse mais vida, e mais coração, mas não mais vontade: com elle, por elle, e para elle existe, na propria ausencia o tem presente; e quando cessa de abraça-lo, he para se gozar de o ter abraçado, e cuidar como logo o abraçará de novo, e volverá a ser d’elle amado, fazendo-o feliz.
Tal he o theor da natureza: tem excéções e numerosas. Corações ha de homens, que sem ser effeminados, não desdirião n’um peito feminino; e corações de mulheres, que talvez bem nascidos e bem fadados, mas torcidos depois pela educação, quebrados pela sociedade, corrutos pelos exemplos, merecem as satiras, demaziadamente geraes, com que os autores de sua degeneração todos os dias lhe poem ferrete: mas essas, mais infelizes do que culpadas, os desgraçados que as pintem e condenem, eu pinto a mulher amante, a mulher perfeita, a mulher mulher, a mulher como a concebi, como a conheço, como a adoro. Foi esta a que Deos fez e temperou de poesia e harmonia lá na origem do mundo, quando vio que não era bom que o homem vivesse só. Esta he a que depois de nos dar a vida, no-la suaviza e apura; no-la multiplica em entes novos; no-la adoça nos momentos derradeiros; nos ama ainda, quando ja não somos; dá seus beijos amorosos a uma pedra, porque do nosso nome lhe conserva uma letra; e consummando o seu destino de amar, felicitar, sacrificar-se, ajoelhada na terra, nos vizita no mundo das sombras; estreitando o seu commercio com os ceos que a esperão, para nós só os invoca, e depois de no-los ter dado em amostra no tempo á fôrça de amor, á fôrça de amor no-los grangêa na eternidade.
Custa a crer como um ente, que he metade da nossa especie, que das duas he a mais amavel metade, a mais carinhosa, em tantas couzas nosso igual para nos attraír, mas com tantas differenças de nós para se nos unir ainda mais, que se tem defeitos de nós os recebe, e nos dá em troca, sem o cuidar, tantas das virtudes que possuimos, custa, digo, a crer como um talento, a quem sua propria fraqueza devêra tornar inviolavel, pôde ver-se em todos os tempos, e provavelmente continuará a ser até ao fim dos seculos, alvo e emprego das críticas mais desabridas, e mais grosseiras calúnias. Divindade extraordinaria, a quem seus proprios ministros e sacrificadores insultão adorando-a, e que de cima de seu altar, fragil mas eterno, inalteravel em sua mansidão, derrama sôbre bons e máos a felicidade! Que a filosofia as injuriasse não espantára. La Bruyere foi cruel para com ellas, Larochefoucault furioso, nenhum d’elles justo, nem sequer francez: a filosofia não anda sem os filosofos, e todos sabem como os dados a esse triste officio, são pelo demais almas seccas e incapazes de avaliar branduras, entendimentos sem olhos de imaginação, unicos proprios para julgar da verdadeira belleza; homens emfim eremiticos, rusticos e ignorantes no meio da sociedade; e para remate de suspeição, ja alongados pelo inverno da vida: da-se á filosofia o que as mulheres ja não querem.
A poesia não tem sido menos descomedida: a poesia, que d’ellas e para ellas nasceo, cujas Divindades forão com razão pelos antigos fabuladas em fórma feminil, como as Graças, como os Genios de tudo quanto ha amavel na natureza, a poesia, a seu máo grado, lhes tem sido rebelde todas quantas vezes os poetas, por de sobejo amantes e zelosos, precizárão desabafar desgraças verdadeiras ou fantásticas: a lira acostumada a lhes entoar seraficamente não louvores senão hinos, resoou execrações, ás quaes respondêrão numerosos echos; porque onde o numero dos ingratos e indignos era grande, não podia o dos maltratados e queixosos ser pequeno: e d’ahi nascêrão essas civis guerras da literatura a favor e contra o sexo, guerras batalhadas nas salas e saráos, nos passeios em romagens, nas merendas das comadres e nas academias, desde o Japão até Portugal, desde os serões da arca diluviana até os nossos dias, em que o amor cedeo á política, e as questões das mulheres ás questões dos ministerios: Factus est repente de cœlo sonus, tamquam advenientis spiritus vehementer.... Ahi vinha ja querendo-se intrometter o meu demonio meridiano: ápage!