Mas os feitiços da Primavera não se limitão nos da recreação e amor. Um medico vos dirá que he ella a estação da saude; um sabio a do vigor mental; um navegante a do princípio de confiança nos seus mares: o artífice a saúda como a que abre a porta a longos dias; o pastor como a mãi da abundancia; o agrícola vê as esperanças do anno desparzidas por suas terras, por suas vinhas, por seus pomares. Ah! só os homens das cidades, tristemente condenados á fadiga e ao luxo, quasi não encontrão a primavera no seu anno! Para esses reduz-se a mais algumas horas de luz, e a uma pouca mais serenidade em um ceo sem horizontes. Se ao menos se podesse esta serenidade reflétir nas nossas almas!... mas os redemoinhos das novidades, os raios das intrigas ambiciosas, o frio do desalento e carregadas nuvens ao longe esterilizão tudo, e se uma ou outra flor de esperança nos desabrocha a medo, lá está logo a reflexão, filha do conhecimento dos homens, que a faz com um sôpro desapparecer. O anno dos nossos destinos teve um inverno bem longo e rigoroso: n’elle sulcámos a terra para semear liberdade e ventura, adubámo-la com o nosso sangue e corpos de nossos irmãos, regámo-la com o nosso suor e lágrimas; e agora que nós e nossos filhos esperavamos ao menos a florescencia que nos augurasse frutos para o futuro, a Deos approuve de outro modo, e uma torrente de iniquidades, que não quer parar, continúa a assolar a terra de nossos avós.

ABRIL

Este mez, assim chamado por abrir o seio da terra á fecundidade; consagrado desde a infancia de Roma á Deoza da formosura, á Mãi das Graças, Amores, e Jogos, he o primeiro que ouza, por debaixo ainda das últimas nuvens chuvosas do inverno, sair e folgar com seu manto verde, e bordado de flores. O dia da sua entrada era para os nossos antepassados uma festa popular, menos estrepitosa que o Carnaval, de que parecia imitação, mas tambem mais innocente e serena. Ignoro se esse costume o herdárão elles de nações mais antigas, com quanto dos Romanos o não houvessem, de quem tantos outros lhes vierão. Tão pouco me recordo de haver lido alguma origem historica aos brinquedos rituaes do primeiro de Abril; mas sabido he que elles existírão em nossa terra, e inda hoje se lhes conservão os restos, mormente pelas Provincias. O dinheiro pregado nas ruas, as cartas, e prezentes de lôgro, a pedra que chamavão das agulhas, a fôrca de Judas, e outras quejandas bagatelas para rir, estão entretendo n’esta hora bastantes dos nossos aldeões do norte.

As lembranças velhas tem para mim muito grande saudade, e doçura; doe-me o coração quando vejo ir-se perdendo estas seculares tradições que a ninguem fazião mal, ainda que nascidas em berço de superstição, e que de bom tinhão o transportar-nos a tempos sabidos, e remotos, ou a tempos mais remotos ainda, e ignorados. E que he o que as apaga, e fica em seu lugar? odios, pobreza, e desgraças. Oh! aonde estará um poeta amigo dos serões e da innocencia, que se apresse em nos escrever os Fastos do nosso bom Portugal? No meio da confusão desconsolada do presente, nós beijariamos essa obra como santa reliquia em terra de infieis: veriamos um iris vão mas brilhante, entre nuvens de tormenta. Para excitar algum bom engenho a no-lo dar, he que eu coméço, e continuarei sempre a recordar nos seus dias proprios as nossas antiguãlhas: o que farei com muita avidez, porque d’aqui a alguns annos, o investiga-las será ja tarde. Assim os pintores Italianos se deleitão copiando os restos amortecidos das pinturas a fresco que sobre-vivem ao grande Imperio, e os antiquarios trasladão avidamente os enrolados livros das cidades soterradas, antes que de todo se desfação em pó.

MAIO.

He a apparição d’este mez uma festa da natureza, em que sempre os homens se alegrárão: quizeramos poder tributar-lhe algumas flores pelas tantas que nos elle concede. Não teçamos o seu encomio d’aquillo que sendo sensivel a todos não carece de ser descrito. Zéfiros e rosas, rolas e rouxinoes, abelhas e borboletas, a terra toda verde, o ceo todo azul, as noites começando a fugir como envergonhadas de esconder as alegrias da natureza, objétos são que ainda que desde a origem do mundo se apresentem sempre novos, já se tornárão lugares communs nas descrições da poesia. Voltemo-nos para as recordações; embalemos e adormeçamos com ellas por um pouco o espirito martirisado dos absurdos e crueldades d’estes máos tempos, em que ja se não crião fabulas risonhas e innocentes, coloridas pela imaginação, animadas pelo amor.

Forão os homens antigos os que idolatras da concordia, para melhor a insinuarem á terra, collocárão nos astros a sua imagem brilhante, e ao signo de Maio chamarão o signo dos Gémeos. Elles forão os que sensiveis aos encantos das Artes, consagrarão este mez a um Deos, que vivificando a natureza pela luz e calor, presidia com a Lira na mão aos prestigiosos artificios que a embellezão. Almas petrificadas ha ahi, para quem estas saudades do mundo antigo são frivolas, comparadas com um artigo de gazeta; para nós he delicioso andar mergulhando pelo oceano dos seculos, e não voltar a assentar-nos na nossa Ilhota escabrosa e esteril, senão carregados dos coraes, das pérolas, das riquezas formosissimas, que se cá não produzem. O fundador de Roma dedicou aos mancebos (Juvenes) o mez de Junho; era essa a idade que lhe fazia ganhar vitorias, mas ja primeiro havia consagrado o Maio aos velhos (Majores), porque feroz como era, Romulo experimentava o afféto que nos attráe para com o antigo. Passemos por alto Festas misteriosas da Deoza Bona, celebradas pelas Romanas no primeiro de Maio, em todo o segredo dos Penates e sem testemunha de varão; visitas das Vestaes ao Pontifice Maximo e principaes Magistrados da Republica; contemplemos a expiação dos Lémures, pois que usos nossos me parecem ter d’ahi recebido origem.

Á meia noite levantava-se o pai de familias, hia-se descalço, calado, e chêo de terror santo, á fonte, dando por todo o caminho amiudados estalos com os dedos para afugentar os genios máos. Lavava trez vezes as mãos, e tornando-se para casa, vinha atirando uma a uma, por cima da cabeça e para traz de si, favas negras, de que trazia chêa a boca, e articulando taes palavras—com estas favas me resgato a mim e aos meus:—o que por nove vezes repetia, sem olhar para traz, para não espantar o espétro que vinha apanhando as favas negras. Tomava agua por uma ou duas vezes, batia n’um vaso de bronze, e para conjurar a sombra a lhe largar a casa, por nove vezes repetia—Sahi, ó manes paternos.—Eis provavelmente d’onde provierão estes sustos vagos que ainda se dão a sentir aos homens rusticos no princípio de Maio; este uso de se repartirem e comerem castanhas seccas para evitar que o Maio se apodere de nós. A imaginação do bom povo perdeo de vista essas larvas, mas o medo que ellas produzírão lhe ficou: he uma especie de moeda, que safada como está de passar de mãos em mãos, ainda conserva a sua valia.