O DIA DA
PRIMAVERA
POEMETTO EM DOIS CANTOS
Em dois Cantos se divide agora este Poema, para commodo de quem lê. Entendi em apertar melhor que da primeira vez, este feixe de flores, se o he: algumas deitei fóra sem fazerem mingoa; as demais forão refrescadas, e se me não engano mais algum viço ganharão. Puz-lhe com tão boa vontade as mãos como na Epistola: pelo que, sem deixar de ser o mesmo, he outro; he o mesmo no essencial e intrinseco, todo outro no lustre e na toada.
DEDICATORIA
A MINHA MÃI.
Á maneira das arvores, que acordando do sono do inverno ao bafo omnipotente da primavera, como que ressuscitão com o riso e vida nos primeiros olhos e flores, o meu engenho começa a matizar-se das suas, com a tornada d’estes dias puros e deleitosos aos amigos do campo. As primicias, que d’ellas pude colher, forão para a grinalda que apresentei na Festa da Primavera celebrada com os meus amigos. Depois de a haver tirado do altar da Deosa que governa a mocidade do anno, a quem senão a ti, ó minha Mãi, devêra offerecer esta grinalda? sim: outrem qualquer a engeitára por de nenhum preço; de ti sei eu certo que lhe acharás uma graça especial, mais finas côres, e fragrancias mais suaves: emfim me atrevo esperar que póstos amorosamente os olhos na minha Obra, entenderás, sem o dizer, como eu sinto todo o amoroso da gratidão, ao cuidar em quem me deo alem do ser, a educação, e todos os mais carinhosos desvelos: alguns suspiros e lagrimas, para cúmulo da minha felicidade, serão talvez por ti, ó minha Mãi, espalhados na minha ausencia.