Portugal (consequencia legitima das duas verdades precedentes) tem a sua moralidade relaxada, ou perdida. O instincto de vida lhe está aconselhando Agricultura, como riqueza, como vinculo, como civilisação.
Portugal tem terras, que pedem braços e população, e tem muitos milheiros celibatarios ociosos, que folgariam de as cultivar; tem um Exercito, que o devora, tanto quanto o podia opulentar, e cuja existencia se não abona por nenhuma sincera consideração de independencia, de paz, ou de ordem publica.[1]
A philosophia, que festejou a abolição total das Ordens religiosas, a despeito de tão fortes argumentos moraes e juridicos, requer, sob pena de flagrante inconsequencia logica, a secularisação d’estes conventos militares.
Quem expulsou os Frades, do claustro para a fome, ¿por que não convidaria os Soldados, do quartel para a lavoira? O paralello entre os Soldados e os Frades poderia ser extenso, e conteria um grande poder de argumentação a fortiori; mas é obvio; qualquer por si o fará em querendo.
Portugal tem, afóra o Exercito, um crescido numero de individuos e de familias, que definham, que, litteralmente falando, morrem á fome. ¿Qual d’essas familias, qual d’esses individuos, recusaria um torrão, fosse onde fosse, se todo o torrão, com a boa vontade, é meza posta?
Dados á Agricultura operarios, que existem, e que lhe falecem, ella mesma pela sua energia vital intrinzeca se desenvolveria, pois vemos que assim mesmo, ao acaso e desajudada, lá começa a revolver-se para se querer alevantar. As Sociedades promotoras augmentariam e dirigiriam essa mesma energia, chegando com a sua acção, de um lado pelas Sociedades secundarias, até aos casaleiros; do outro lado, pelo seu crédito, pelas suas relações, pelo seu valimento, até ás Camaras legislativas e ao Governo. O Ministerio dos negocios da Agricultura daria unidade aos movimentos d’este vasto e bello corpo.
Então o futuro estaria conquistado, as dividas mortas, os males sanados e esquecidos. Então haveria força publica, porque haveria fé; haveria em todos os corações amor da Patria, porque haveria a todos os olhos uma Patria para amar. A guerra interna seria impossivel. A guerra externa, se podesse jamais accommetter-nos, veria rebentar da terra exercitos invenciveis, porque defenderiam as suas lareiras, as suas hortas, e os seus filhos. O Thesoiro trasbordaria para todas as artes preciosas da paz, porque haveria fontes perennes e copiosas para a sua alimentação.
¿Será isto uma utopia?
¡Utopia!... A utopia, a chymera, o absurdo, é pretender colher fruto de arvore sem raiz e carcomida de musgo; é presumir, que a um edificio arruinado se acode remendando lhe com barro, aqui e acolá, as paredes exteriormente; é cuidar, que se ressuscitará um afogado calcando-o para o fundo do lodo, e lançando-lhe penedos para cima. A utopia, a desgraça, e a miseria, é crer que as palavras, as estenographias, os algarismos, são capazes de crear coisa alguma. Creadores, abaixo de Deus, não os ha senão o campo, e o amor. O senso commum o sabe, e a Historia não sabe outra coisa.