Se jamais no Sacrificio da Ara se implorou com fervor paz e concordia, d’aquella bocca se hão-de elevar quotidianamente taes orações, como perfume de incenso sem mistura.
Esquecei esse monarcha de espiritos no meio do seu povo; elle vos serve com mais zelo do que vós mesmos vos servis. Em torno d’elle intercede-se cada noite pela vida de bons e maus. Em quanto elle respirar, sabei que ha no Reino um recanto, em que a indigencia mesma não amaldiçôa. Os filhos se ufanarão de haver sido por elle baptisados; os esposos, de lhe terem recebido a benção; os moribundos, de lhe exhalarem no seio a alma, por elle já desenleada de espinhos, e já de antemão coroada das açucenas do Ceo.
Estes serão necessariamente os Parochos procedentes das escolas d’aquelles Bispos. Uma Lei de homens, mas de homens sãos e sizudos, haverá creado uma semelhança de paraizo.[5]
Falámos do sacerdocio de Deus; falemos do da Natureza; falemos das Mulheres.
Um phenomeno moral dos mais inexplicaveis, é a dependencia, a sujeição, a especie de tutella ignominiosa da mulher em todos os paizes, em todas as edades, em todos os graus da civilisação. Nascido d’ella, creado por ella e para ella, referindo a ella quasi todos os seus trabalhos, pensamentos, e ambições, proclamando-a soberana, acatando-a quasi como uma semi-divindade terrestre, o homem não cançou ainda de tratal-a de facto como serva.
O seu nome triumpha na lyra dos poetas; as suas graças, na tela dos pintores e no marmore dos estatuarios; o seu credito, na lança dos antigos paladins, na pistola e espada dos modernos duellistas; a sua apparição na sociedade é recebida com murmurio festivo e lisonjeiro, como a da aurora na espessura a que ella traz vida. Se desprende a voz, a razão parece mais bella passando pela sua bocca; a virtude perde o seu azedume; um feitiço indefinivel lhe careia todos os animos; o tumulto se apazigúa; os vicios grosseiros escondem o rosto e emmudecem até a deixarem passar. O rasto de aromas, que os seus cabellos e os seus vestidos deixam apoz si, não egualam ao vago e voluptuoso affecto, que o mais leve dos seus movimentos coou até ao fundo dos corações. Respeita-se-lhe o juiso; ama-se-lhe o espirito, a modestia, a decencia, os instinctos bons, nobres e generosos, a timidez que não exclue a heroicidade. Colhem-se-lhe as palavras benevolas, como diamantes que se enthesoiram e defendem com ciume; fazem-se os maiores sacrificios para lh’as merecer. O mais soberbo sente-se ufano no dia em que obtem a sua mão; o mais avaro daria metade dos thesoiros pelo seu primeiro suspiro, e os thesoiros todos pelo seu primeiro beijo; o mais sabio a consulta, como a melhor e menos fallivel porção de si mesmo. N’uma palavra: o mais grave dos nossos interesses, a primeira educação moral dos nossos filhos, ¿a quem é commettida? dir-se-hia que a nossa alma, ainda tenra, se nutre no seio da sua, como entre os seus braços bebemos no leite de seus peitos o seu amor.
E todavia... Abri os codigos de todo o mundo, e perguntae-lhes o que é este ente, complexo de tantas maravilhas, creado para companhia do homem, mas depois do homem, como elle o fôra depois dos brutos, e os brutos depois dos entes insensitivos.
Todos os codigos vos responderão: «É uma escrava.» E alguns: «É uma victima.»
Os trabalhos continuos, obscuros, e inglorios, são a sua vida; e a sua morada um carcere. Aqui, a excluem dos recreios mais honestos; além, a punem com o ridiculo, se deixa respirar o seu talento; uma decencia convencional e tirannica lhe impõe silencio quasi continuo. A acção, o passo, o dito mais indifferentes, lhe são interpretados. As Universidades lhe estão fechadas; defezas as magistraturas e os tribunaes; inaccessiveis o fôro e a tribuna. Só da caridade, dos hospitaes, das escolas de infancia, e do claustro da oração, a não poderam excluir.