A Agricultura, a velha e robusta mãe dos povos, auxiliada dos seus dois incançaveis primogenitos, Industria e Commercio, é a bemfeitora por excellencia; a compensadora unica das differenças das regiões; a expressão maxima da Divina Munificencia, e o mais claro documento da nossa social destinação.

Qualquer Sciencia, qualquer Arte, supprimida, deixaria uma falta, mais ou menos para sentir; mas a falta da Agricultura desataria de repente a Sociedade, e dentro em pouco extinguiria o proprio homem.


¡Longe de nós o insensato pensamento de negarmos ás cidades a sua importancia! A baixo das choças aldeanas, nada mais nobre que as cidades; nada, que as Leis mais devessem favorecer, depois dos campos.

Os metaes preciosos, de que uma invenção profunda, e quasi inspirada, compôz, por que assim o digâmos, o sangue, que devia circular por todo o corpo social, necessitavam, como o sangue no corpo de cada individuo, deposito amplo e energico, para onde confluissem de toda a parte, e que outra vez para toda a parte os deramasse. A Cidade foi o coração do paiz agricola, e centro unitivo de sua vida.

Ás cidades, as industrias, secundaria e terciaria; o manufacturar as materias; o permutar as manufacturas. Aos campos a primaria industria; o ministrar a omnimoda materia para essas duas outras.

Artes e Commercio encantadores são, que modificam, metamorphoseiam, e transferem tudo sem cessar; mas só a Agricultura cria, só ella, filha primogénita da Divinidade, é, sobre a terra, Divindade. Só um povo que lhe quer, e a quer, e a serve com desenganada preferencia, só esse é rico; rico sem fausto, mas rico sem receio de empobrecer.

As minas cançam e exhaurem-se; as conquistas levantam-se e fogem; as fabricas podem cahir, ao erguerem-se novas fabricas n’outras partes; a grande louca do mundo moderno, a moda, as derriba a cada passo, roçando-as, ao passar, com o seu vestido novo, ou com os seus novos enfeites; o mesmo Commercio, no seu carro triumphal de oiro, corre estrepitoso por cima de alturas resvaladias, por entre despenhos e rivaes inimigos, que ao primeiro descuido o precipitarão.

Só a terra entretanto se não esgota; só n’ella se podem empregar beneficios, sem colher ingratidões; só ella pode dizer, como o seu Creador: «Pedi e recebereis»; só ella pode supprir tudo, sem poder outra alguma coisa suppril-a.

Quando ella treme, sacode de sobre si, em nuvens de pó, castellos massiços, paços alterosos, armazens e feitorias de portas chapeadas, como um leão, com um frémito musculoso das jubas, afugenta os insectos, que vieram poisar sobre elle em quanto dormia; mas a Queluz e Versailles do lavrador, a sua choçasinha de palha, essa vacilla um momento, como as arvores circumstantes; assustou-se, como um passarinho entre as ramadas; mas fica em pé, e rasserena-se, vendo tudo em derredor tão arraigado, tão viçoso, tão quieto, como d’antes.