—Nem trinta vezes

que eu passasse por elle, o aprenderia;
a não ser pelo rasto que deixasse
esmurrando o nariz por essas lapas.
Já levo sem ferrage ambas as mulas;
perdeu-se o norte; não descubro casa,
nem gente, nem caminho, e é quasi noite.

Patrão, por meia legua mais ou menos,
não se deixa uma estrada como aquella,
que costeava o monte á beira da agua.
A velha era uma bruxa, e nós dois asnos.
—Dize um que vale dois, mas dois não digas.
Se tomámos o atalho em vez da estrada,
toda a culpa foi tua; eu não queria,
porem teimaste; e eu não me opponho a teimas.
—Mas eu ¿por que teimei? ¡pois se a maldita,
com ar de santa, e palavrinhas manças,
nos rabiscou co'o pau no pó da estrada
tão claramente as idas, as venidas
d'esta serra sem fim, não lhe escapando
lomba, moiteira, torcicólo ou brenha,
que a mula mesma entenderia o mappa!
¿Quem não cahia em tal? cahiam todos.
E de mais ¿quem nos diz que aquelles riscos
não tinham diabrura ou nigromancia
capazes de encarchar um Santo em carne?
¿E quem me diz a mim que a grenha russa
não vai ao pé de nós? ¡talvez sentada
na anca da mula!... ¡fúgite, demonios!

Meu Doutor, pelo mundo ha muita coisa;

quem mais anda, mais sabe; e eu não sou tolo,
nem creancinha de honte. ¡Olha o diabo!
bem digo eu; a azinhaga aqui poz ponto;
caminho... ¡era uma vez! ¡Má raio a parta!
¿que havemos de fazer nestas alturas?
—Tornarmos para traz.

—¿Por este escuro?

¿quer dar cabo das mulas, e estoirar-me?
¡co'um milhão de diabos!!...

—Pois fiquemos.

—E as mulas comam terra, como os sapos,
e nós carqueja.

—As noites são bem curtas.