Não mora entre seáras a etiqueta;
mas sobre herdada meza de pinheiro
em troco adeja a cordeal franqueza,
o bom desejo adubo da abundancia,
e a amisade dos bons, filha do instincto,
que nasce qual relampago, mas dura.
Deu-se o primeiro instante ao comprimento,
logo o segundo aos commodos;
o resto á conversa, e ao bulicio de tal noite.
*
Vem-nos do forno, envolto co'as risadas,
vital perfume de mellifluos bolos,
que em molles virações traz a alegria.
Aquella vai e vem compondo a meza;
esta afervora a ceia, e a cada instante
corre á janella que descobre a aldeia.
Juntam-se á bulha os sinos da parochia,
que o sacristão na vespera do Orago
jurou provar seu zelo aos Ceos e á terra.
O festivo repique exalta as mentes,
os meninos não param, correm, gritam,
repartem bombas, furtam-se valverdes,
e rindo ameaçam fogo á pipa velha.
A boa annosa mãe ralha do estrondo,
e o faz inda maior; o esposo enfia
uma sobre outra historias do seu tempo.
O avito candieiro de tres lumes
cobre da meza o centro, e chama á ceia;
a sôlta sociedade eis se lhe aggrega.
Não foi longo o festim, mas cada copo
lhe augmentava o praser. ¡Salve tres vezes,
ó dos tres lumes candieiro avito!
¡quanto amor, quanta paz, que bens, que festas
não tens visto florir em tua casa!
¡quantas mãos tão felizes como puras
te hão accendido em noite igual! ¡quem sabe
que de memorias para ti conservas!
¡Em premio da hospedage aqui te accendam
longas eras em noites semelhantes
dignos de seus avós contentes netos!
*
Iria a muda apostrophe adiante,
mas ouviu-se o zabumba.—¡Ahi veem! ¡são elles!—
dizem todos, e todos saem pulando.
—Olhae; olhae; ¡nem uma luz na aldeia!
este anno veio tudo. ¡Que alegria
terá o nosso Parocho!
—Maria,
dá cá o meu chapéo.
—¡Corre, Pedrinho!
—¿Onde está meu irmão?