VI
Meia noite. Que som mysterioso!
interrupção no baile e nos descantes.
*
Fada das amorosas prophecias,
tu, tu passaste agora em concha aerea
tirada pelo zephyro; sentimos
todos nós tua magica presença.
¡Boa viagem, Fada, e boa noite!
¡Salve, hora duodecima; bateste,
e descerrou-se a porta do futuro.
Sua nevoa desfeita em orvalhadas
vai nas plantas eleitas, vai nas flores
mal chamuscadas, vai filtrar nas sortes
benção, certeza, amor, felicidade.
Já se interrompem bailes e descantes.
Embebida em potentes nigromancias
toda esta multidão por modos varios
exerce escrupulosa altos mysterios.
Mas renasce o alvoroço; é porque os copos
dos bilhetes fatidicos chegaram
da ama nas mãos com riso de importancia.
—Não falta aqui rapaz nem rapariga—
diz ella;—o senhor Padre escreveu todos,
mesmo á vista do rol dos confessados.
Meia noite já deu; quem quer casar-se,
pode vir vindo.
Ao grande reboliço
succedeu a attenção, que a cada sorte
outra vez se converte em gargalhadas.
Por cada par que amor approvaria,
veem disparates comicos ás duzias,
e dão rebate ás palmas e epigrammas.
O proprio bom do velho applaude a tudo,
e por primeira vez da sua vida
encontra em si chorrilhos de finuras.
Já pede a uma o bolo do noivado;
quer ser padrinho de outra; e ás mais bonitas
quer baptisar de graça os pequerruchos.
Muito custa no mundo o ser discreto
sem descambar o pé! coisas escapam...
que é por Deus não haver o Santo Officio,
como esta ao nosso padre:
—Olhae, rapazes,
vai n'estas sortes o que vai no mundo:
o acaso e a Providencia, ao que parece,
ambos lêem pelo mesmo Breviario.
Não foi dos mais christãos o epiphonema,
mas fez rir. O Golgan neste comenos
chega, furta uma sorte, e diz abrindo-a:
—Esta, seja quem fôr, é cá p'ra nostri.
Pede que a leiam; lê-se-lhe:—O coveiro.—
Mudo o povo se entre-olha; e de repente
co'as pragas do Golgan destampam risos,
como os que o padre Homero encaixa aos deuses;
¡inextinguiveis risos! Mas não cede
a chufas nem a agoiro o varão forte;
e com mão bem segura extrae sublime
do outro copo outra sorte:—Ambrosia Trécula.
Então do pateo o riso clamoroso
deveu-se ouvir no Artabro e Guadiana
retumbou nos ceos: Trécula... Trécula.
—¿Quem diabo é esta Ambrosia?—o heroe pergunta.
—Sou eu—responde a ama.