netos, que não verá, gosarão d'ella;
e indiff'rentes incógnitos vindoiros
rirão contentes ao folhudo abrigo.

*

Mas, velhos, mui ditoso o que em seu predio
dispõe arvore fértil de esperanças,
que irá legada aos filhos de seus filhos.
Prophecias de amor lhe expande o seio,
sorri, e ama o que é seu, na esp'rança ao menos.
Mas feliz egualmente o que em seu predio
possue vaidoso um tronco hereditario.

*

Na réga, e ao vir da flor, e ao dar do fruto,
¿como ha-de não pensar em seus maiores?
Um lh'o plantou, os outros lh'o trataram;
¿Como ha-de recusar-lhe uma saudade,
um suspiro, um suffragio, um elogio?
A gratidão medita á mesma sombra
onde já meditára o amor paterno.
Esta arvore mortal é o santo marco,
em que se juntam, se entrelaçam, crescem,
dos idos o interesse e o dos vindoiros;
nó de affeição, que os seculos reune.

*

¿Vedes vós essa mãe, que ha tantos annos
chora um filho alem-mar, em longes terras?
Mostrae-lhe um passageiro a dar á vella
para o porto feliz; ¡com que ternura
lhe não dará, chorando, um longo abraço,
que leve, que lh'o entregue, ao seu querido,

e todo o amor de mãe lhe exprima n'elle!...
¡E com quanto alvoroço o desterrado
não cingirá o amavel mensageiro!...
Eis o emblema da arvore, cruzando
viva e lembrada o Oceano das edades,
mensageira de int'resse aos paes e aos filhos.

IV

¿Qual de vós, repoisando n'esta cama
de folhas mortas, qual de vós, no meio
d'esses troncos musgosos, seculares,
não viaja com o espirito espraiado
por esse mundo antigo e antigos homens?
Sim, vossa alma se apraz, phantasiando
de lhe restituir quanto houve d'elles:
uma vida, uma choça, herdade e patria.
Deslembram cans; rugosas faces riem;
reviveis n'um minuto annos de infancia
sob a affeição de um pae, de um pae nos lares;
sem cuidados, sem prole, e sem temores,
entrais folgando o limiar da vida.
¡Podesse n'este ponto o pensamento,
como ave em ramo flórido e viscoso,
deter-se a recordar, ficar pregado!
¿Vós suspirais?!... desfaz-se-vos o sonho,
e a extincta geração recai nas campas.