Tiragem apenas de 100 exemplares
20 em papel de linho, 80 em papel d'algodão.
N.º____
Por muitas vezes hei escripto, e mais uma ainda aqui o faço, embora com isso se possam morder uns tantos mal soffridos, a quem a cega Fortuna tem dispensado innumeros favores mais devidos a seus inexplicaveis caprichos, d'ella, do que ao merito proprio, d'elles, e invejosos, apesar dos beneficios com que injustificadamente colmados, do valor real de outros a quem a mesma Fortuna tem sido sempre adversa; mais uma vez sobre tantas outras direi que é Antonio Francisco Barata, da Bibliotheca de Evora, um dos mais talentosos, dos mais sabedores, dos mais conspicuos e benemerentes homens de lettras do nosso paiz, e d'aquelles a quem devidos são mais respeitos e considerações; muito mais que tudo, e o muitissimo que é e vale, bem documentado em todos os ramos, bem o posso dizer, da litteratura, a si só e ao seu incansado e fadigoso labutar o deve, desajudado de todo o auxilio e protecção; e muito mais que a seu luminoso espirito, vasta erudição, e superior manusear da opulenta lingua patria, predicado hoje tão raro até entre os nossos escriptores de primeira plana, reune uma acendrada probidade litteraria, um indiscutivel amor das cousas portuguezas, e de suas glorias, um caracter levantado e austero, e uma hombridade respeitavel e digna, não bandeados ás conveniencias ordinarias da vida.
Irresistivelmente me acodem estas palavras aos bicos da penna, ao lançar, em reduzida e modesta edição, ao nosso mundo litterario, o breve trabalho por Antonio Francisco Barata escripto ao correr da penna e de momento, a proposito do que nas Reparaciones Historicas escreveu sobre a «Batalha de Toro», o sabio academico hespanhol o sr. Don A. Sanchez Moguel. Esta é que é uma verdadeira «reparação historica», muito para agradecer e louvar a quem a traçou.[A]
Rodrigo Velloso
[A] Vão aqui estas palavras, irresistiveis como o digo, e tanto como a força da verdade, á revellia do sr. Antonio Francisco Barata, e bem receio que ellas molestem sua conhecida modestia. Se assim fôr, releve-m'as elle com sua usual benevolencia.
A BATALHA DE TORO
1.º de Março de 1476
Desde que, ha um anno, li o notavel livro do Academico Madrileno, o sr. A. Sanches Moguel: Reparaciones historicas, impresso em Madrid em 1894, me ficaram desejos de revistar os conhecimentos que eu tinha, havia muito, acerca da Batalha de Toro, ou de Zamora, pois que o livro a isso me convidava 'nesta affirmativa: "Toro es, en efecto, el desquite de Aljubarrota", que se lê a paginas 292.