([Pag. 366].)
Indisculpavel descuido seria, deixar de mencionar o nome do Sr. D. Carlos Guido, a quem devo ter composto a poesia que tem por titulo «Retractação». Foi este o ensejo. Poucos dias depois de publicados os «Segundos Cantos», recebi uma carta do Sr. Guido: era uma critica, mas critica benevola, cheia de enthusiasmo, escripta sem pretenção alguma e ao correr da pena. Agradou-me, porque me agrada sempre conversar com os meus amigos, e era um amigo que me escrevia, um poeta talentoso, que então pela primeira vez se me revelava como tal,—joven enthusiasta, e cujo coração é como uma pedra de toque da mais exquisita sensibilidade.
Tendo percorrido com a sua analyse algumas das composições do meu 2. volume, accrescentava elle:
«Dir-se-hia que a sua palinodia é um chuveiro de pedras crystallisadas, agradaveis de se vêr, porque são prysmas, que reflectem as mais pronunciadas, fortes e soberbas cores; porêm que devião converter-se em instrumentos terriveis de vingança, quando chegassem até a mesquinha mulher, a quem fossem dirigidos, como um anathema fulminante.
«Se eu não tivesse tanta confiança nos instinctos do coração, que o levão a exhalar o seu amor só onde acha fogo, fidelidade e caricias, pensaria talvez que aquella mulher existe, e então eu faria ao poeta amargas reflexões sobre a crueldade, de que usou para com ella.»
Aceitei a censura, e dirigindo-me ao Sr. Guido escrevi a Retractação, versos filhos d’aquelle momento, e inspirados pela leitura recente da sua carta. Se algum apreço delles faço na actualidade, é por ter feito vibrar a lyra doirada do poeta argentino. Consuelo foi o titulo que deu aos seus versos, e era effectivamente um canto de consolação e de esperança: perdi ha muito o authographo dos versos do Sr. Guido; mas o sentido, a suavidade, a sentida sympathia do seu canto, esses me ficarão no coração.—Consolações e esperanças!—Doces são, por certo, as lagrimas, que sobre nós derramão os olhos de um amigo, ainda que não acreditemos no raio de esperança, que elle s’esforça por entranhar em nossa alma. Efficazes forão as suas consolações; mas ainda mal que os seus votos não tenhão de ser realizados nunca!
NOTAS DE RODAPÉ:
[1] Artigo publicado na Revista Universal Lisbonense. Tom. 7, pag. 5.—anno de 1847—1848.
[2] Ego sum qui sum.