Minha alma não está commigo, não anda entre os nevoeiros dos Orgãos, involta em neblina, balouçada em castellos de nuvens, nem rouquejando na voz do trovão. Lá está ella!—lá está a espreguiçar-se nas vagas de S. Marcos, a rumorejar nas folhas dos mangues, a susurrar nos leques das palmeiras: lá está ella nos sitios que os meus olhos sempre virão, nas paisagens que eu amo, onde se avista a palmeira esbelta, o cajazeiro coberto de cipós, e o páu d’arco coberto de flores amarellas. Alli sim,—alli está—desfeita em lagrimas nas folhas das bananeiras—desfeita em orvalho sobre as nossas ores, desfeita em harmonia sobre os nossos bosques, sobre os nossos rios, sobre os nossos mares, sobre tudo que eu amo, e que em bem veja eu em breve! Ahi, outra vez remoçado e vivificado de todos os annos que esperdicei, poderei enchugar os meus vestidos, voltar aos gozos de uma vida ignorada, e do meu lar tranquillo ver outros mais corajosos e mais felizes que eu affrontar as borrascas desencadeadas no oceano, que eu houver para sempre deixado atraz de mim.
Rio de Janeiro, 17 de agosto de 1850.
A. GONÇALVES DIAS.
POESIAS AMERICANAS.
I.
O GIGANTE DE PEDRA.
O guerriers! ne laissez pas ma dépouille au corbeau!
Ensevelissez-moi parmi des monts sublimes,
Afin que l’étranger cherche, en voyant leurs cimes,
Quelle montagne est mon tombeau!