ÁCIS.

Vamos cortando por entre estas faias: Dá cá a mão: salta o rego: olha, não caias. Tu saltas mais, do que eu: és bem ligeira!

GALATÉA.

Se eu quiser não me apanhas na carreira. Que farão hoje ao ver-me de contentes As amigas, visinhos, e os parentes, Que ao vêrem-me vagar só sem conforto Julgar-me-hão morta, por julgar-te morto?

ÁCIS.

Se o bem nos foge, atêa-se o desgosto: Torna o bem, morre o mal, renasce o gosto. Tu verás nas Pastoras desgrenhadas Olhos feridos, faces desmaiadas. E ao ver-te, o riso, e pranto misturando, Humas ás outras com prazer chamando: Todas para te verem correm, voão: Vivas, applausos pelos ares sôão. Huma te beija a face alva, e rosada, Que a faz com pranto seu rosa orvalhada. Outra te enfeita as tranças graciosas De myrto, e cravo, de jasmins, e rosas. Verás, que ao som das lyras vem cantar-te A magoa de perder-te, o bem de achar-te. Verás, como os chorosos innocentes, Quando te virem, brincaráõ contentes. Verás a fonte, que turbada a vejo, Corre alegre a dar a nova ao Téjo. Verás o Téjo, que sem ti bramia, Quão plácido vem ver-te á praia fria. Verás o Melro, o Rouxinol suave Convertendo a tristeza em canto grave. Verás saltando os tenros Cabritinhos Alegrarem os tristes Cordeirinhos, Verás curvar-se o tronco a dar-te as frutas; Correr o rio, vir trazer-te as trutas. Hoje farás feliz, farás contente A Aldêa, o rio, a fonte, o gado, a gente.

GALATÉA.

Feliz me fazes tu: viver me fazes: Aos meus bons dias novos dias trazes.

ÁCIS.

Como posso eu fazer a alguem ditoso, Quando só por ser teu, sou venturoso? Sem ti rustico sou, humilde, e pobre: Comtigo sábio sou, sou rico, e nobre.